Solidão Necessária

“Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar, que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo” – Clarice Lispector
O ser humano é relacional, o ser humano precisa de laços, vínculos. O ser humano precisa da solidão mas, tememos e rejeitamos a todo momento essa possibilidade. A solidão é triste, é sinônimo de fracasso, de abandono, de rejeição. O ser humano não foi feito para ficar sozinho, o ser humano precisa ter alguém quando chegar em casa. Tudo isso foi sendo construído ao longo da nossa história, o que não quer dizer que não precisamos uns dos outros. Mas, da mesma forma que temos essa necessidade, também temos a de ficarmos a sós. 
Um dia conheci uma mulher, uma senhora com um bom casamento, bom relacionamento familiar, uma pessoa realizada e ela me disse: “Eu amo ficar sozinha. Adoro quando meus filhos estão na universidade e meu marido viaja a trabalho. Nesses momentos eu não faço nada, faço só o que eu quero. Se quiser andar de pijama e ficar sentada o dia inteiro, eu fico. Esse é o meu momento de prazer”. 
Quando escutamos uma fala dessas logo afirmamos que a senhora não tem uma boa relação familiar afinal, quando se tem uma boa relação familiar a gente não quer se ver longe de quem ama. A companhia se torna indispensável e acima de tudo necessária. Percebem como logo vinculamos a solidão com a impossibilidade de um estado de felicidade? 
Pois bem, assim como precisamos nos alimentar, nos relacionar, precisamos de momentos de solidão. A solidão necessária nos apresenta, nos coloca diante das nossas vozes, dos nossos olhares, da nossa companhia. A solidão é a ausência do olhar do outro que comunica algo sobre mim. Essa comunicação na relação sempre me apresenta algo, vindo de um lugar que não é meu. Por isso que vimos sempre casais muito experts no outro e pouco conhecedores de si. A solidão nos apresenta as nossas vozes, medos, angustias, criatividade, paz, tranquilidade, silêncio, calmaria. Ela nos presenteia com um momento único em nossa própria companhia. 
Quando nos permitimos a solidão, entregamos a possibilidade de nos desenvolvermos como seres humanos mais compassivos, mais generosos, menos juízes. Nós entramos em contato com a delícia e o desprazer de sermos quem somos. A solidão necessária é saudável, é preventiva, é reforço de saúde mental. Façamos essa imagem: Todos nós temos um filtro de pano, como aquele de café. Nosso filtro recebe água quente e pó, esse é o momento das relações, enquanto isso vamos coando, coando, alguns mais lentamente, outros de forma mais acelerada. Mas, em algum momento precisamos lavar o nosso filtro, não conseguimos lavar enquanto alguém derrama água e pó de café. Se não tivermos tempo, nossos furinhos vão entupindo e de repente você nem sequer percebe que o seu filtro já não carrega mais nada seu. Para um café bom, o filtro precisa estar devidamente preparado. A solidão é o momento de lavar, de esperar secar e de poder escolher qual pó de café e qual água vão ter o prazer de entrar em contato com você. 

A chave que não trancou

É frequente encontrarmos almas descontentes com suas vidas, escolhas, trabalho, casamento, amizade, família, e uma infinidade de “importâncias desimportantes”. De maneira recorrente me deparo com essas almas perdidas e que aparentemente se percebem sem caminho. 

Muitas pessoas dizem que precisam seguir em frente, fechar a porta e não olhar para trás como se num passe de mágica fosse possível esquecer parte da vida. Os sonhos se confundem com desespero, com desalento, se perdem da função de guiar no caminho da vida. Quando os sonhos se confundem eles ficam frágeis e a mercê de impulsos primários de prazeres sem significados.

Afirmativas como “Não consigo fazer”, “Não me sinto capaz de arriscar”, “Meu medo não me deixa ir”, me faz pensar o que essa pessoa precisa juntar e descobrir em si para seguir o impulso vital que, por algum motivo, está sendo bloqueado impedindo a alma de se manifestar.

Todos nós temos nossos impulsos, sonhos, guia e caminho, no entanto, nossos medos,receios e as infinitas justificativas impedem de identificar o que nos é, de fato, importante. Muito me questiono quantos sonhos se perderam nessa vida, quantos desses sonhos deram lugar a imagens fugazes?

Reencontrar a alma é dar espaço para a sua própria fala, o seu próprio sussurrar. Abrir caminho para que o singelo sussurro transforme-se em uma majestosa linguagem é dar vida a vida.
Prestar atenção nas ideias súbitas pode ser um caminho de encontro com a alma, arriscar-se, saltar, ir adiante é simplesmente o passo que pode ser o mais importante.

“Descobri que adoro fechar portas,
As portas fechadas me presenteiam,
Cada porta fechada me traz paz,
Cada porta fechada um passado jaz.
Atrás da porta sim, 
Atrás da porta senti medo, tristeza, angústia,
Atrás da porta senti desespero, aperto, decepção,
Atrás da porta não via saída,
Atrás da porta só via a mim e a minha solidão.

Ao descobrir a fechadura, a chave e o trinco senti,
Senti alegria, esperança, conforto, segurança e gratidão.
Descobri que fechar a porta é abrir,
Abrir não ao infinito e as suas possibilidades,
Mas abrir caminho para a minha vivacidade, 
Abrir para a escolha não é um simples abrir,
É simplesmente me abrir.

Aprendi a agradecer a porta que se fechou e,
Ao passado que ali ficou.
O belo de todo aprendizado foi o que gerou,
A chave que não trancou.

Aprendi que a chave de nada me serviu,
O mais lindo foi o que dela surgiu,
A porta que amei fechar não precisava da minha chave, 
A porta que amei fechar estava ali a esperar,
Pacientemente pelo meu passar”.



Enfim, vamos permitir nos encontrar com aquilo que realmente somos, não só com os nossos erros, mas sim com nossos sonhos. 

A conscientização do feminino

Tenho percebido que há uma quantidade cada vez maior de pessoas procurando ajuda para passar pelas crises de uma relação, seja relação amorosa, de trabalho, amizade ou familiar. O tema que muito tem aparecido e que eu interpreto como sendo a crise do feminino, tem afetado diretamente a vida de muitas pessoas. 
Antes de dar início ao texto, quero esclarecer que, quando uso o termo feminino não me refiro ao gênero e sim, ao princípio, a  função do feminino, que está na mulher e no homem. Para escrever esse pequeno artigo li muitos livros, usarei alguns deles para ajudar a clarificar o que seria essa crise do feminino que é tão atual.
Marion Woodman em “A feminilidade consciente” diz:
“Uma grande quantidade de pessoas que perdeu o casamento ou um relacionamento chega a casa à noite e mal consegue girar a chave na fechadura. Estão afogados na solidão. Escuridão é tudo que existe do outro lado dessa porta. Elas projetam seu próprio vazio nesse espaço. Não há ninguém em casa. É um trágico desperdício de vida. Aqui é onde a feminilidade é crucial. Se você tiver trabalhando bastante seus complexos e for capaz de diferenciar entre sua própria voz e as vozes destrutivas de seus complexos, então conseguirá aplicar sua própria força. Você poderá dizer: “Estou aqui. Este lugar não está vazio. Eu posso preenchê-lo com minha própria essência. Esse não é um sofrimento sem sentido. Eu confio que alguma coisa nova está nascendo do caos”. A feminilidade consciente nos dá coragem para confiar no momento, sem saber qual é o objetivo”.
É fato que muitas pessoas passam por esse tipo de crise, acham a solidão dura e insuportável. No entanto, como diz Marion Woodman, é o próprio vazio que está projetado do outro lado da porta. A partir do momento em que a pessoa consegue adquirir consciência do seu próprio ser, esse vazio deixa de existir. O grande desafio é trabalhar os complexos para que o “Eu” não se afunde na inconsciência. Saber quando está pensando e olhando o mundo com os olhos de um complexo materno ou paterno, saber o que é verdadeiramente seu e o que é do outro. Aprender e conhecer a si mesmo é a saída e o alimento para preencher a sensação da solidão. 
Em “A coruja era filha do padeiro”, a autora traz o  retrato de que nessa cultura atual, as mulheres estão vivendo orientadas pelo principio masculino. 
“(…) Em sua tentativa de encontrar seu próprio lugar num mundo masculino, elas aceitaram sem perceber os valores de natureza masculina, como viver para consecução de objetivos, fazer tudo compulsivamente, ater-se ao plano material, que é incapaz de nutrir seu mistério feminino. Sua feminilidade inconsciente rebela-se e manifesta-se de alguma forma somática”. 
Mulheres deprimidas, com distúrbios alimentares, com dores por toda parte do corpo. Sintomas que possivelmente refletem algo fora do lugar, um peso além do suportável. O corpo pede para parar. Escuto frequentemente mulheres desejosas de homens gentis e que ao mesmo tempo não suportam serem cuidadas pois, isso remete à uma submissão negativa, a submissão de uma época em que a mulher não existia além do seu marido. Tudo está muito confuso, os papéis do feminino e do masculino se perderam para muitas pessoas e há um trabalho árduo a ser feito para recuperar o si mesmo. 
O principal desafio nessa jornada é trabalhar persistentemente para encontrar a essência e assim, deixar de projetar no outro a imagem que gostaria de ter ao seu lado. Aceitar-se e reconhecer suas projeções é o melhor caminho para o auto conhecimento e a recuperação do feminino que confia. 

Solidão

O final de ano para muitas pessoas significa união, paz, amor, esperança, planos, festa, alegria, para muitas outras é um tempo de reflexão e para outras tantas período de solidão. 
A palavra solidão no dicionário aurélio significa: Estado de quem está só, retirado do mundo; isolamento. Ermo, lugar despovoado e não frequentado pelas pessoas. Isolamento moral, interiorização.
Lendo esse significado comecei a questionar: a solidão é puramente algo ruim? Triste? Isolado? Fui atrás de textos que tratavam desse assunto e dois livros me fizeram entrar em contato com a solidão no seu aspecto positivo. O livro “Solidão” de Anthony Storr e o livro “Comer, Reza, Amar” Elizabeth Gilbert.
A solidão pode ser vista como algo puramente ruim se focarmos no isolamento, na tristeza, na depressão, não no sentido do adoecimento físico, mas no adoecimento da alma. Mas a solidão em muitos aspectos é necessária para a vida da pessoa, pois ela proporciona um momento de contato com a alma, de contato com aquilo que realmente é, com aspectos bons, aspectos a serem melhorados e a possibilidade da criação que, quando se está em estado de solidão, pode ficar iminente. 
No livro “Comer, Rezar, Amar” Elizabeth usa de momentos grandiosos de solidão para buscar seu equilíbrio, entrar em contato com tudo aquilo que era parte essencial de sua vida, sofre, encontra a paz, e por fim a possibilidade do amor. Entra em contato com seus anjos e demônios e abre o canal para uma nova forma de viver. 
No livro Solidão, Anthony Storr, questiona aspectos da nossa sociedade que diz que o único caminho para a felicidade é o relacionamento. Pois não é, existem muitas formas de encontrarmos a felicidade, o problema é que damos pouca atenção a outros aspectos de nossas vidas, como a criatividade e o valor do nosso trabalho. O autor, com sabedoria, fala da solidão em seu aspecto positivo.

É importante, compreendermos que, valorizar o trabalho, não significa viver para e pelo trabalho, mas que essa função pode ser uma das fontes de felicidade. Assim, como para muitas pessoas o relacionamento amoroso é fonte de felicidade, desde que a relação  não vire o motivo único de sua existência. É importante sabermos que há uma possibilidade de relacionamento consigo, que pode sim, ser uma grande fonte de satisfação e felicidade. No entanto, essa forma de viver é vivida por muitas pessoas de maneira tranquila, mas para muitas outras é algo inconcebível. Existe uma grande chance de ser feliz sozinho, desde que haja harmonia e paz interior. 

Final de ano, como disse no início do texto, é para muitas pessoas um período triste. Mas como lidar com esse tristeza do final de um ciclo e início de outro? Temos a capacidade de olharmos por vários canais, mas o mais importante é que se optarmos pela nossa solidão, que seja uma solidão criativa e não uma solidão de isolamento e paralisação
Saibamos finalizar o ano com a possibilidade do novo e não com o medo do desconhecido. Que no momento em que a solidão bater, que o diálogo com esse estado emocional seja estabelecido, para que possa com amor, cuidar de algo tão precioso como o sentimento. 
A solidão pode ser o seu caminho para a esperança, basta olhar com carinho e compaixão pela sua vida. O isolamento afasta, não só dos outros, mas principalmente de si. No entanto, a solidão pode ser um caminho de proximidade e de transformação. Acredite em você!
Desejo a todos um final de 2010 com sabedoria, paz interior e muito amor. Agradeço aqueles que acompanham meu blog e que me inspiram a escrever cada vez mais. 
Muito obrigada!!