Ausência para uma outra presença.

Nossa que saudade! Fiquei ausente por muito tempo, mas isso tudo tem um motivo: a nossa mudança. Mudar de país não é tão simples quando precisamos desfazer de uma vida no Brasil. Faz dois meses que chegamos à Alemanha e só agora pude sentar e escrever. Ausência para uma nova presença. 

Não faço a menor idéia por quais caminhos irão minhas reflexões, muitas mudanças aconteceram e o olhar tem acompanhado isso.  Gostaria de trocar um pouco e tentar falar sobre o recolher a partir da minha experiência. Vocês vão me sentir mais perto. 

Recolhemos muitas vezes quando o inesperado aparece, recolhemos em casa, no quarto, embaixo das cobertas, recolhemos para dentro da gente. Sentimos medo e muitas vezes não sabemos o que fazer com isso. Não gosto de pensar que o medo é um sentimento de pessoas que não confiam na vida, não possuem fé, não se deixam levar ou até mesmo que são aprisionantes e aprisionadas. O medo é humano e a questão maior que fica é: como dialogar com esse medo? Muitos me perguntaram e me perguntam se tive medo nessa mudança e eu digo: por mim não tive medo algum, pelo meu filho tive todos os medos. Mas Camila você não confia? Confio demais, confio tanto que vim. Tenho um filho pequeno que não pode escolher e por ele tenho muitos medos. Tudo é uma questão de fé na vida, sei que irá passar e que logo estará integrado e dominando a língua local, mas até que isso aconteça preciso todos os dias lidar com a impotência. Me recolho no sentimento de impotência e consigo estar presente com ele. Sem desespero comecei a sentir e me colocar em lugares inimagináveis dentro de mim e do mundo. Como se sente um analfabeto no mundo? Agora eu sei um pouquinho. Como se sente com infinitos olhares de curiosidade e julgamentos sem a possibilidade de desfazer tais ideias? Eu sei um pouquinho. Como se sente uma pessoa que vive à margem da sociedade? Agora eu sei um pouquinho. Como se sente uma pessoa completamente dependente de alguém? Ah! Eu também sei um pouco. Como se sente uma pessoa que sofre preconceito? Estou começando a saber. 

Quem me conhece sabe que tenho um olhar positivo para a vida e que sempre busco o lado bom de tudo, por isso não vou ficar no relato sobre a forma como tenho conseguido ficar bem, porque eu, normalmente, fico bem nas adversidades. Isso é a fé na vida não forçada. Agora quero propor um encontro com esse sentimento de recolhimento por impotência. Quando nos recolhemos porque temos diversas situações na vida que nos abalam, ficamos um tempo pensando em nós. Tinha tudo para fazer disso, um prato cheio como diz minha mãe. Mas, como aprendi na vida, tem momentos que precisamos ressignificar. Por isso, me recolhi na impotência para pensar o mundo e me colocar nesse mundo. Como é difícil não conseguir ler, não conseguir se expressar, não conseguir se defender de olhares de julgamento e curiosidade. Como é difícil dizer para alguém que foi sem querer e nem a sua expressão ser capaz de dizer isso, afinal, as culturas são bem diferentes e por aqui não se sentem tanto como nós brasileiros. Como é difícil estar no parque e vivenciar a exclusão por preconceito e não ter ferramentas para tentar solucionar tal situação. É uma impotência tão grande e uma dor tão aguda que a vontade é sair correndo. Mas aí logo me coloquei como ser no mundo e senti, senti da pior maneira possível, o que é estar à margem pelo preconceito. 

No meio de tudo isso fiquei com o pensamento, como se sente um refugiado? Isso eu realmente não faço ideia. Deve ser algo terrível. É como viver dentro de uma grande prisão. Há uma busca de liberdade mas o preço é alto a se pagar. Você se torna livre e ao mesmo tempo está completamente aprisionado pelo olhar do outro. É viver o dia como se nunca fosse acabar, é perder todo o sentido e querer se trancar, é viver a liberdade sonhada numa cela trancada. 

O mesmo me questionei no polo oposto: como se sentem os alemães diante de tanta diferença cultural? Como se sentem quando vêem seu patrimônio sendo pixado, depredado e mal cuidado por pessoas que possuem dificuldades em lidar e respeitar as diferenças culturais? Estamos na casa deles, cautela e respeito precisam fazer parte. Mas muitos vivem num egocentrismo tão grande que realmente acham que o esforço e a mudança precisam vir dos alemães. Estava no parque e algumas crianças estrangeiras riscavam seus nomes em uma placa e nada foi feito pelos pais. Que costume é esse? Que direito temos de destruir? Ninguém tem o direito de nos destruir e não temos o direito de destruir nada. Pude em uma semana sentir os dois lados da mesma moeda da destruição. 

Começo a me deparar com a situação de que somos todos estrangeiros no mundo e diante dessa situação, onde somos o outro, precisamos aprender a entrar, dar um passo de cada vez, nos apresentar e, acima de tudo, observar. É preciso sentir, às vezes é necessário se recolher para refletir: o que efetivamente é nosso e o que carregamos como parte cultural que impactam de maneira negativa? E o que impacta de maneira positiva no mundo? Somos estranhos e achamos estranho, somos o outro e vimos o outro, é tudo tão diferente e tudo tão absolutamente igual. Recuar, recolher, ir, ir além, mas não podemos ultrapassar aspectos importantes de que ali existe , bem na nossa frente, algo completamente desconhecido. Agora não é mais o outro e sim a dura e graciosa apresentação à vida e ao mundo. Absolutamente, sair da nossa bolha é cair no mundo e não podemos cair de paraquedas crendo que temos muito. Temos pouco, muito pouco. Somos um grão de nada na imensidão de um todo, que também pode ser um nada. 

Me recolhi para sentir, para refletir. Me recolhi. 

No silêncio das árvores o vento é uma voz alta que se impõe.

Tem momentos na vida que o que prevalece é o silêncio. O silêncio da fala, o silêncio da ansiedade, o silêncio do impulso, o silêncio do andar, o silêncio da respiração, o silêncio da preocupação. O silêncio é tão intenso que começa a trazer um outro lugar no mundo, outros valores, outros ares e outras pessoas. Mas o silêncio por si só incomoda quem está de mãos dadas com o barulho. E é aqui que o início de uma luta se faz presente. Quanto tempo conseguiremos tolerar nosso verdadeiro silêncio quando o mundo nos exige uma voz alta e estridente? 

Um dia desses, nesse tempo incerto caminhava pela rua e parei com meu filho embaixo de um limoeiro, ali fiquei parada olhando os frutos que se desenvolviam. No profundo silêncio o cheiro do limão me fez conversar. Como a natureza é sábia e forte. Aquela pequena árvore fazia lentamente o seu processo em vida. No momento certo apresentou ao mundo seus filhos, deu a eles o necessário para crescerem fortes e se desprenderem de seus longos braços. Se tornaram grandes, suculentos e capazes de criar suas próprias raízes. Alguns serão os nossos alimentos e aqueles que, antes do tempo da colheita, caírem ao chão se tornarão dispensáveis a nós seres humanos exigentes, para dar a terra o melhor de seus nutrientes. Nesse mesmo instante o vento, a chuva começaram a balançar  os galhos daquela árvore e mudou o percurso que idealizei para aqueles frutos e, como reagiu a natureza? Aceitou! Somos capazes de simplesmente aceitarmos o caminho que a vida nos impõe? Somos capazes de aceitar as tempestades e suas consequências? 

No silêncio das árvores o vento é uma voz alta que se impõe. No silêncio das árvores sua copa é uma voz alta quando o sol se impõe. Diante do sol e diante do vento algo em nós, filhos da natureza, age na contramão do que nos foi ensinado. Diante do silêncio da vida e do silêncio da morte todas as vontades se impõe. Diante da vida e diante da morte todo controle se impõe. Mas diante daquilo que precisa ser não há tentativa de imposição que se faça tão forte quanto a jornada de cada alma. O processo é lento, silencioso, solitário e transformador.  

“Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece. Porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano. Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento. Assim somos nós. Só podemos ir em frente e arriscar. Coragem! Avance firme e torne-se Oceano!” – Osho

“O Rio e o Oceano” é minha tentativa de finalizar um texto, mas de maneira nenhuma colocar um ponto final no silêncio que guia.