50 tons e o entusiasmo feminino

A trilogia 50 tons de cinza tem dado muito o que falar. Por esse motivo esse mês falarei dessa história que tem mexido tanto com a cabeça das mulheres. Ler os três livros foi tranquilo e instigante, o que me deixou em alerta foram os comentários que ouvi na faculdade, nas ruas e dentro do consultório.
É certo que ler a trilogia sem nenhuma visão crítica te faz cair facilmente em um romance fraco, sexualizado e idealizado. No entanto, por que mais de 30 milhões de pessoas, mais especificamente o público feminino, tem se interessado por tal tema considerado pornografia para mamães? Não é uma trilogia de grandes análises, mas, mostra o quanto o feminino está desesperado na procura do seu lugar no mundo.
Há alguns anos atrás o discurso social era baseado na conduta da mulher dentro de casa. Para conquistar um bom partido ela precisava ter boa mão, aí conseguiria “pegá-lo pela boca”. Com a revolução feminina e a tentativa de uma liberdade sexual inexistente, a mulher precisou buscar outros meios de conseguir o tão esperado bom partido. Seria hoje pegar o homem pela cama? Mais de 30 milhões de leitoras, o que tem atraído tantas mulheres?
Cristian Grey é um homem de sucesso, muito rico, o homem perfeito até que aparece a proposta sado-masoquista para uma garota recém formada e virgem. Ela entra de cabeça na relação, aceita o contrato sexual e embarca nesse romance dominador – submissa. Muitas críticas vieram. Análises sobre os personagens,  Cristian Grey é um psicopata e Anastasia Steele é uma mulher que gosta de apanhar é uma visão reducionista. É fato que muitas mulheres desejam seu Cristian Grey, mas quem é para elas o 50 tons?
O modelo do homem protetor volta com tudo. As mulheres entram em contato com esse modelo de homem idealizado, capaz de protegê-la. Precisamos entender, que proteção é essa? Dois pontos acho importante ressaltar, a proteção e a posição do feminino na atualidade.
É fato que a trilogia aponta a necessidade de uma submissão, não da mulher, mas do feminino. Poder tornar-se mulher é o grande desafio que encontro diariamente em meu consultório. O princípio feminino está intimamente ligado ao princípio masculino, a mudança de um aspecto reflete nas duas funções. Mas, que tornar-se mulher é esse? É sair do lugar de dureza e intransigência, é se permitir receber gentilezas, é possibilitar sair do lugar de comando sem sentir-se diminuída e menosprezada. É permitir dar espaço a paciência. Não sentir a necessidade de competir e saber que a vida é para ser vivida. Mas, onde se encaixa a proteção? É importante questionarmos essa necessidade, a mulher precisa ser protegida do que? Não podemos entrar em questões concretas da realidade atual, mas, podemos entender que a proteção pode ser dela mesma, da necessidade de se ter o poder, de trazê-lo para o relacionamento e com isso impossibilitar a união. O poder faz com que haja a necessidade de que o outro precise de você. A verdadeira relação te dá a possibilidade de escolha, ou seja, você pode querer estar com o parceiro.
A dominação e submissão sexual de forma imposta e desrespeitosa não segue adiante no romance, Anastasia se recusa a prosseguir e sai do contrato para posteriormente dar início a um outro tipo de relacionamento. A sua volta possibilita ao Cristian questionar-se e permitir-se entrar em contato com o outro, algo que não viveu durante toda sua vida. Mistério que é desvendado ao longo da história. Anastasia que num primeiro momento parece uma moça tola e influenciável, se torna uma mulher que traz a possibilidade da construção do casal. Ela é a saga de milhares de mulheres.
Fazer a crítica simplesmente por estar diante de um best seller é, a meu ver, criticar sem compreender o por quê se tornou sucesso de vendas. É a impossibilidade de aproximação do outro. É colocar uma barreira entre o poder e a dominação intelectual e a submissão do entusiasmo da massa, considerada por muitos “inteligentes”, incapazes de ter uma visão crítica. Ok, nem tudo está na consciência. Nossas mudanças partem de um processo inconsciente. Se está atraindo tantas mulheres, temos que compreender que, em algum lugar algo está sendo mexido.
A primeira mudança se dá no concreto e os 50 tons tem sido para muitas delas esse primeiro passo. Olhar para si e questionar seu relacionamento baseado em um romance idealizado e realizar mudanças é no mínimo uma tentativa de desenvolvimento.  Longe de ser desconsiderado, temos que olhar o motivo de tanto entusiasmo. Isso é um alerta. Que venham as mudanças pelo 50 tons, pois, podem a partir daí, surgir a necessidade de uma mudança mais profunda e verdadeira. Não esqueçamos que os primeiros passos no caminho do desenvolvimento acontecem em um plano concreto para posteriormente surgir a possibilidade de caminhar para uma mudança profunda e inteira.
O cuidado que deve ser tomado é não mudar o discurso social “homem se pega pela boca” para “homem se pega pela cama”. Essa mudança da narrativa não traz um novo lugar da mulher na sociedade. Homens não devem ser pegos e nem mulheres devem virar caçadoras. As relações precisam ser construídas através uma conquista verdadeira, onde se aceita e é aceito pelo outro de forma inteira e respeitosa. 

Sobre o amor

Sobre o amor. O que significa amar? Que sentimento é esse que para muitas pessoas é o combustível da vida? 
Escrever sobre o amor é algo muito delicado. Esse sentimento  tem peso, significado e importância completamente diferente em diversas culturas. Na cultura ocidental o amor é essencial, é ar, é o pensamento e para muitos, o grande objetivo da vida. Mas, de qual amor falarei? Aqui, discorrerei sobre o amor romântico e o amor na atualidade baseada no livro de Regina Navarro Lins “O livro do amor”.
Para dar início a esse tema delicado, diferencio o amor romântico do amor atual. O romântico é aquele que imagina, idealiza a vida de duas pessoas como sendo uma só. Há uma fusão onde a individualidade é deixada em segundo plano, visto que,  o objetivo dos amantes passa a ser a felicidade única e integrada. Hoje essa ideia do amor romântico está caminhando para uma substituição, onde o amor primeiro é por si e traz o outro para dentro desse mundo sem perder a individualidade. Individualidade é um conceito fundamental na atualidade. 
Pode-se pensar que no séxulo XX  era esperado que o amor fosse vivenciado de maneira intensa, idealizada, romantizada, endeusada, enfim, repleta de projeções humanas. Sendo isso, há uma impossibilidade de permanência na relação pois o parceiro idealizado torna-se real. 
Hoje há necessidade de pensar o amor a partir da ideia de que primeiro deve amar a si mesmo e com isso as expectativas com relação ao parceiro mudam, não sei se são completamente diferentes do amor idealizado mas, o objetivo é ter o outro como parceiro e não como aquilo que desejo. Também não acredito que seja possível, pois as projeções são inevitáveis. A questão é que há uma maior consciência para a compreensão do por que escolhemos aquele cônjuge. 
Ainda hoje vejo quantas pessoas duelam internamente entre essas duas formas de amar. De acordo com a autora, é perceber que há uma mudança na exigência de exclusividade que o ideal do amor romântico apresenta mas, discordo que esteja saindo de cena. A exclusividade, para muitos, ainda é algo importante e valorizado dentro da relação. No entanto, é discutível que exclusividade é essa, se é aquela que impede o outro de existir, de ter seu próprio espaço pode caminhar para o fim da união. Mas, se é aquele amor que pede exclusividade dentro da intimidade, a necessidade desse ingrediente passa a ser fundamental na relação. O que é exclusivo pode ser visto como algo só meu, mas dentro da relação o exclusivo poder ser aquilo que é só nosso.  
 
Devemos considerar que na sociedade ocidental atual ainda se vende a imagem do amor perfeito. Não sei se caminha para o fim, talvez para a fusão do romântico e do individual. 
Termino o texto desse mês com mais um parágrafo do livro, que ao meu ver, sintetiza o significado ocidental do amor.
“O amor é uma convergência de muitos desejos, alguns deles sexuais, outros éticos, muitos diretamente práticos, outros pouco românticos e fantásticos. No amor não queremos só sexo e segurança, mas também felicidade, companhia, diversão, alguém para  viajar, sair, ouvir conselhos, ter orgulho desse alguém, enfim, uma associação com quem é uma vantagem social e um aliado, alguém com quem vamos dividir o trabalho doméstico e aumentar a renda da casa, alguém de quem podemos depender na hora dos problemas e nos consolar nos momentos de tristeza, e por aí vai.” 
 

Casamento, Intimidade e Sexualidade

Tenho visto com certa frequência muitos casais reclamarem de sua vida sexual no casamento. O que antes era queixa dos homens, hoje tem ficado mais evidente a ausência deles na cama e a presença de mulheres insatisfeitas. Casais cansados, sem disposição e com outras prioridades, permitiram que o mistério da sedução perdessem o seu lugar. Que intimidade conquistada foi essa que trouxe ao casal desânimo sexual? 

Escuto de muitos casais questões como: “Isso é normal não é? Depois de algum tempo junto o sexo tende a ficar monótono e escasso”; “Eu sei que o sexo muda, mas, porque ele não consegue mais me olhar com desejo?” Esse tipo de insatisfação sempre aconteceu? Pensar sobre a sexualidade e buscar uma melhora tem ficado cada vez mais frequente. Não é mais uma insatisfação só do homem, as mulheres tem reclamado cada vez mais da ausência de seus maridos. No entanto, muitas delas voltam toda a culpa para si e reflexões sobre não ser mais atraente, estar acima do peso, flácida, ficam cada vez mais constantes. O problema é que novamente a mulher passa a ser responsável pelo prazer do homem, nesse caso a falta de estímulo é culpa exclusivamente dela. Peso desnecessário e cada vez mais frequente. 

O relacionamento há muito tempo tem lutado para conseguir seu espaço íntimo, com a intimidade que traz cumplicidade, apoio, diálogo. No entanto, juntamente com a amizade e proximidade os casais se afastaram na cama. A sexualidade está cada vez mais escassa, o leito que no início do casamento era o lugar mais frequentado hoje está populoso, com filhos, preocupações, trabalho, estresse e incansáveis diálogos sobre o relacionamento. 

Ao meu ver, o que pode minar o desejo é a ilusória ideia de garantia, não há relacionamento que se garanta simplesmente pelo fato de, eu acho que o outro merece ser feliz e a felicidade dele sou eu. A intimidade traz a ideia de pertencimento, não existe perigo de se perder, o outro é meu, o que mostra o caráter possessivo da relação. Essa intimidade mata o desejo pois não há perigo da perda, no entanto, quando o perigo se torna iminente o desejo volta à tona. A partir do momento em que a ideia de pertencimento desocupa o lugar, o relacionamento adquire uma nova cara, a intimidade passa a ter outro significado, sou íntima, ele me conhece, mas, não conhece tudo. Eu posso manter o meu espaço e esse espaço é suficiente para fazer com que o outro me queira por perto. A ilusão de conhecer o outro plenamente afasta a necessidade de exploração e impossibilita a mudança. Tal impossibilidade gera angústia e pensamentos como: “Se eu mudar posso perder o meu companheiro (a), eu posso não ser aceito (a)”. Esse aprisionamento acontece justamente porque criou-se a necessidade de um relacionamento estático, aí, fica a questão: como uma relação estática pode gerar uma sexualidade atraente?

Anteriormente o homem se via como o único receptor do prazer e a mulher tinha que cumprir com o seu papel de esposa. Hoje, o homem se percebe como agente do prazer, o que me faz pensar que a partir dessa mudança pode ter ocorrido uma autocobrança onde ele precisa mostrar para si e para o outro o seu desempenho.

Penso que, não podemos mais olhar como sendo uma questão do homem ou da mulher, mas sim do casal. Ninguém tem que se sacrificar pelo outro mas sim pela relação. A relação exige, o casamento e o amor precisam acontecer para que a união se mantenha em pilares fortes e saudáveis. 

Termino o texto com uma belíssima frase de Joseph Campbell:  “O amor em si é dor, você poderia dizer, a dor de estar verdadeiramente vivo”.

Esse texto é uma pequena parte do artigo apresentado no XX Congresso Internacional da Associação Junguiana do Brasil que aconteceu em junho de 2012. “Amor sem sexo é amizade? Aumento da intimidade com a perda da sexualidade é um destino do casamento?”

Sexualidade no casamento

O casamento passou por mudanças significativas nos últimos anos. De vínculo financeiro para vínculo afetivo, do sexo depois do matrimônio para sexo antes da consagração, da liberdade de escolha para a vivência de escolhas.
Dentre muitos temas relacionados ao casamento, dos quais já postei aqui, trago esse mês o sexo para refletirmos. Usei dois livros, um de alcance direto de muitas pessoas e outro de conteúdo teórico voltado à psicologia, para explicar tanta mudança na vida sexual de muitos casais.
O romance de Elizabeth Gilbert, “Comprometida”, traz a história da origem do casamento e como o casamento é sentido e vivido em nossa sociedade atual. Para a autora nascemos carregados de expectativas de nossos pais que nos dizem desde pequenos o quanto somos especiais, ou seja, diferentes do filho do vizinho. Casamos com a ideia de encontrar a felicidade e projetamos no parceiro nossos ideais e sonhos para que ele magicamente os descubra e realize-os, afinal somos alguém especial que ele não pode nem sonhar em perder. 
No livro de Esther Perel, “Sexo no cativeiro”, a autora traz a relação sexual como algo que saiu da clandestinidade, do proibido, para algo liberal e muitas vezes sem graça. O casamento trouxe a tão esperada e desejada intimidade e afastou o desejo, o mistério. Trouxe o amor, o carinho, o aconchego, mas afastou a paixão, a vontade louca de estar com aquele que um dia despertou um sentimento especial, diferente o suficiente para desejar senti-lo por toda vida. Ela questiona por que o sexo tem se tornado chato e sem graça em casais que afirmam se amar tanto?
Esse tema do sexo tem sido frequentemente discutido em várias rodas de conversas, palestras, workshops e penso que algo na liberação sexual, na intimidade e na necessidade do amor tenha refletido na monotonia sexual de vários casais. Alguns resolvem trabalhar isso buscando satisfazer esse desejo fora da relação, fazem e destroem aquilo que um dia foi desejo soberano, o companheirismo. Outros buscam incessantemente dialogar e tentar compreender o que mudou, o que fez aquele fogo todo virar brasa. 
O estresse tem sido um grande inimigo da sexualidade, companheiro presente na vida de muitos casais. Além do estresse, a intimidade sem individualidade mistura e afasta. Há uma necessidade do casal aprender a se diferenciar, a manter o amor, o companheirismo, a igualdade, mas trazer a individualidade. A particularidade e o mistério trazem como parceiro número um o desejo. Aprender a ter vida conjugal e individual faz do sexo algo mais próximo e prazeroso, intimidade com indiferenciação faz o sexo ser morno e escasso. 
Sexo bom no casamento não é sexo frequente, diário, é sexo com amor e desejo.