Ciclo Vital. A Fase Última: revisitando a vida

Esse mês trago a última fase do ciclo vital, conhecida como a Fase Última.
Curiosamente encontrei na literatura aspectos da fase última que impedem, muitas vezes, os idosos vivenciarem plenamente essa fase. Fenômenos que intensificam o papel parental onde na verdade deveria prevalecer o papel dos avós como aqueles que recebem em seu lar as suas gerações posteriores.
No entanto, quero trazer duas situações rotineiras: a primeira onde os idosos podem viver plenamente essa fase última da vida. A segunda, quando na tentativa de auxiliar seus filhos perdem a possibilidade de desfrutarem de uma vida mais leve. Na primeira situação que mencionei, os idosos conseguem fazer retrospectivas referente a forma como viveram, criaram seus filhos, os valores que levaram adiante e os que deixaram para trás. Os idosos nessa fase percebem suas limitações, conseguem reajustar a conjugalidade, são para os filhos, muitas vezes, referência e ponto de apoio.
No aspecto contrário, onde a conjugalidade vira uma prisão, a perda do cônjuge significa a libertação e a possibilidade de seguir no final da sua vida, algo mais ligado ao desejo e as expectativas. Antigamente, não como regra, as mulheres tinham como função principal serem esposas e mães, deixando para trás a mulher profissional e a mulher enquanto indivíduo. Assim, os homens ficavam com a função de prover. Muitas almas femininas foram mortas nessa época, pois deixaram de lado algo que era fundamental de sua essência. Na atualidade muitas ainda deixam sua alma de lado, não mais para cuidar mas sim, para cumprir com expectativas sociais.
A segunda situação onde os avós continuam cumprindo o papel parental, perdem a possibilidade de vivenciarem a sua fase última como gostariam, e não permitem aos filhos que vivam a fase madura lutando e resolvendo as diversidades naturais da vida. Quem nunca ouviu de seus pais: quando eu me aposentar vou aproveitar um pouco da vida? Isso passa a ser um empecilho quando, de forma individualista, os filhos contam com o apoio diário de quem não precisaria mais viver com tantas obrigações.
Como diz Ceneide Cerveny em seu livro “Visitando a família ao longo do ciclo vital”: “O modelo de filho adulto na família atual, dependente dos pais, no mínimo para cuidar de seus filhos, acaba gerando uma ideia familiar de adultos que não chegaram à consecução da tarefa adulta de autonomia em relação aos pais. Assim, os avós se vêem na tarefa não prevista, educando os netos, ajudando seus filhos no difícil gerenciamento da vida moderna, do trabalho de longa jornada. Os avós se engajam com os filhos na tarefa de parentar, auxiliando como provedores, mais uma vez e como cuidadores, mais uma vez”.
Sendo assim, penso que no momento da fase última é muito bom ter os avós para contar, mas contar como avós e não como pais de seus filhos. Os avós podem e merecem desfrutar da maravilhosa experiência de serem avós. Nesse momento é necessário aos pais aprenderem a cuidar de suas vidas com todos os percalços, aprender a resolver problemas sem colocar no outro a responsabilidade de educar.

Ciclo Vital. Fase Madura: redefinindo papéis.

Para falar dessa fase do ciclo vital denominada “Fase Madura” coloco como exemplo uma família com filhos saindo para a universidade, ou trabalho, pais entrando na fase última requerendo de seus filhos cuidados que a velhice necessita e o redirecionamento do olhar para o casal, não mais como pais responsáveis pela criação de seus filhos, mas sim como um casal conjugal.

Sentimentos de perda, de missão cumprida, de angústia, de alegria, estão presentes nesse momento. Considerada a fase mais difícil do ciclo pois, exige de todos os membros redefinições de papéis, é o momento em que o centro organizador desse sistema familiar se vê com muitos questionamentos. Será que eduquei da melhor forma? Será que eles vão conseguir seguir sozinhos? Como vou cuidar agora de meus pais? O que eles precisam de mim? Agora livres da responsabilidade de educar nossos filhos, será que vamos conseguir encontrar um objetivo em comum? Vamos conseguir viver nossa vida de casal?

Os pais muitas vezes sentem-se angustiados e perdidos com a saída de seus filhos de casa, sentem um misto  de vazio, desorientação, medo que misturam-se a alegria de notar que seus esforços na criação de seus filhos os tornaram autônomos e capazes de seguir suas vidas com suas próprias pernas.

A entrada de novos integrantes na família como noras, genros, netos ampliam os papéis do casal, que tornam-se sogros e avós. Muitos dos casais nesse momento olham para si e conseguem refazer planos e acordos que os permitem seguir juntos de uma forma mais madura e completa. Outros, diante de tanta mudança não se reconhecem mais como casal, o que faz cada um seguir seu caminho na vida.

Diante do casal que opta pela união, tem aí uma redefinição do papel conjugal e parental já que não são exigidos na educação, mas sim na cumplicidade e troca entre adultos. Muitos filhos se aproximam mais e tornam-se afetivos e preocupados com aqueles que lhe deram a vida. Na relação conjugal vêem nesse momento a possibilidade de voltar ao início do casamento, onde o casal volta toda a sua atenção para a relação.

O casal está livre para viver papéis de cuidado e carinho com os netos, pois a educação não é mais sua responsabilidade o que permite a eles uma relação mais livre e prazerosa. No entanto, quando esse casal tem consciência desse novo lugar, consegue estar na vida de seus filhos como porto seguro já que não precisam mais orientar. Percebem que não podem se colocar na vida familiar de seus filhos e ficam em seus lugares tornando assim amigos, podendo dividir problemas sem interferir na vida de suas crias.

Outro ponto característico dessa fase é o cuidado que o casal tem com seus pais que se aproximam da velhice. Os idosos, devido as limitações naturais da idade, acabam exigindo de seus filhos assistência nesse momento, o que em muitos casos culmina com a entrada no lar desses que lhe deram a vida e o amparo.

Considerada a fase mais complicada do ciclo vital, é o momento em que muitos casais se aproximam e conseguem no balanço final a satisfação de ver seus filhos crescidos e criados o que dá a possibilidade de aproximação conjugal e redefinições de planos futuros.

O velho e o novo: uma visão psicológica

Resolvi trazer um tema muito comum na atualidade. Busquei nas mais diversas literaturas construir um olhar para a sociedade de hoje. Essa sociedade que saiu da época do autoritarismo para seu oposto. Na psicologia estamos falando da relação arquetípica velho-criança, senex-puer. A dinâmica relacional senex- puer pode ser positiva quando a criatividade, o impulso do puer entra em equilíbrio com a sensatez do senex. O problema é quando aspectos negativos de ambos dominam a estrutura psíquica e trazem desequilíbrio em nossas vidas. É importante ressaltar que, a relação arquetípica do puer e do senex não necessariamente tem a ver com a idade cronológica.
Como o senex, o velho em nós, pode interferir negativamente em nossas vidas? O senex em seu aspecto negativo torna a pessoa rígida, intransigente, autoritária, controladora. No livro “Puer e Senex: dinâmicas relacionais” de Dulcinéia da Mata Ribeiro Monteiro, a autora traz a discussão com diversos autores sobre o arquétipo senex-puer. No texto de Carlos Bernardi, o senex, em sua faceta negativa, tem grande dificuldade com o novo, podendo se tornar pouco hospitaleiro com a diferença. O senex se torna rígido e dá pouca chance ao novo.

No entanto, há aspectos positivos e importantes do senex que na relação dinâmica com o puer é imprescinsível nos dias de hoje. O autor traz a seguinte colocação: “A rigidez do senex pode servir como ponto de resistência contra mudanças que não geram nenhum sentido e são vividas mais como perdas do que como ganhos”. Vivemos em um tempo onde as mudanças sem sentido acontecem a todo momento, perdendo muitas vezes valores importantes para o equilíbrio do ser humano. Sendo assim, a resistência, nesse sentido, ajuda a manter certos valores como por exemplo, o respeito ao próximo.

O lado puer, a criança em nós, é  muito falado na atualidade. Quantas pessoas buscam incansavelmente manter a sua juventude a todo custo? Trago agora aspectos negativos do puer e como isso interfere em nossas vidas. Nesse ponto, o puer não se liga a realidade, percebe-se que o momento certo nunca chega. Em sua faceta negativa, é apressado, inconsequente, sem limite, irresponsável, e vive na eterna juventude. Como traz o autor, quem não conhece pessoas que sob os efeitos dos vícios, seja o álcool, as drogas ilícitas, as compulsões que aliado a irresponsabildiade gera grande sofrimento?

No entanto, o puer também traz seus aspectos positivos, que são aquele que permitem o novo, a criatividade, a possibilidade, o entusiasmo e a energia. Carlos Bernardi diz, quem não conhece alguém que jogou tudo para o alto numa atitude aparentemente irresponsável, mas que jusrtamente por essa irresponsabilidade sua vida tomou outra direção?

Esse lado jovial do puer dá a possiblidade da trasngressão que aliada a responsabilidade do senex permite que a pessoa progrida, se desenvolva. A relação dinâmica do senex-puer é saudável e um possibilitador de mudanças produtivas. 
No texto desse mês escolhi trazer algo que não podemos pensar como estático, mas sim,  dinâmico que nos possibilita refletir sobre nossas condutas e buscar sempre o equilíbrio dessa relação senex-puer em nossas vidas.

Senilidade e a Invisibilidade Social

Há pelo menos dois anos venho refletindo sobre o tema do idoso no Brasil. Em 2008, eu e Clarissa Magalhães escrevemos um artigo, resultado de nosso estágio em uma cidade geriátrica, com questionamentos sobre a posição social do idoso. O artigo foi intitulado “Asilamento e Morte Social,” apresentado na Sociedade Brasileira de Psicologia e que me incentivou a novamente escrever sobre a posição do idoso em nossa sociedade.

A maioria dos idosos no Brasil encontram-se em condição de invisibilidade, social, política e muitas vezes familiar. Morte Social? Morte Familiar? Estão vivos, mas não possuem lugar. A visão sobre o ancião mudou, do patriarca para … para o quê? Em muitas famílias não há espaço para o idoso. Há alguns anos atrás o idoso era tido como o patriarca, que era dotado de sabedoria. Não quero entrar no mérito do autoritarismo vivenciado por alguns sistemas familiares. Vou aqui levar em consideração apenas a posição de respeito para o membro mais velho. 
O ancião era o guia familiar, os mais novos pediam conselho e ouviam as suas orientações. Eles exerciam um papel que, após o término da sua função de produtividade, assumiam o de líderes familiares. O idoso saía do lugar de provedor, cargo este assumido por seus filhos, para ocupar o de orientador. A sabedoria nada tinha a ver com estudos, era o arquivo das experiências da vida.
Hoje, algumas famílias encontram-se cada vez mais fechadas e mais focadas na produção, aquele que não produz não tem espaço. O idoso dessa forma perde o seu lugar na família e na sociedade. No entanto, acredito que, assim como os jovens conseguiram, ao longo da história, mudar a sua posição social e familiar, tornando-se importante foco da sociedade, a senilidade conseguirá novamente o respeito.
Como? Se cada família jovem conseguir compreender que, em determinado momento precisará cuidar dos seus idosos, irá construir em seus filhos a mesma compreensão. Se conseguir sair das justificativas capitalistas, conseguir valorizar o saber, sobrepondo o valor da produção, irá re-construir o valor do idoso. Se pais, filhos e netos assimilarem o ciclo vital e conseguirem re-significar os papéis familiares, todos terão direito e lugar na sociedade.
Essa semana coloco em evidência um tema que tem aparecido com frequência no meio acadêmico, o que mostra certa inquietação dos estudiosos em compreender a forma como a terceira idade vem sendo tratada. A população está envelhecendo e precisamos modificarmos o nosso olhar, a nossa educação e o respeito por aqueles que fizeram e fazem parte da história.