Quando o perdão vira uma relação de poder.

A ideia de perdão pode se tornar uma relação de poder. É comum escutar que você precisaria ou deveria perdoar aquele alguém que lhe fez mal. Se olharmos pela perspectiva religiosa você deixaria de se envenenar com um sentimento de mágoa e perdoaria o mal que o outro lhe causou. Me acompanhem no raciocínio. Quando você é a pessoa responsável por conceder o perdão, automaticamente você se coloca numa relação de poder perante aquele que lhe causou algum mal. Mas perdoar não é um ato nobre? Eu arriscaria a dizer que é um ato de poder.

Se eu entendo que o mal que o outro me causou está na ordem daquilo que é humano, eu compreendo que a falha será inevitável. A partir do momento que eu sei que o ser humano é falível, não faz sentido o ato do perdoar. Quando eu dou o perdão a alguém eu o alivio e me sinto valorizada em um nível de consideração. Isso não lhe soa poderoso demais? Vamos a um exemplo: Ana foi ofendida por Maria. Maria pede perdão a Ana. Está nas mãos da Ana decidir se isso é possível ou não. Pronto! O poder se estabeleceu em forma disfarçada de amor e compaixão. Só que sabemos que não é bem assim.

O perdão não precisaria ser pedido e nem concedido se aquela relação fizesse sentido para além do erro. Quando compreendemos que o outro pode falhar, a falha não é colocada como sendo impossível de ser cometida por quem sofreu a ofensa. Ou seja, o ofendido entende que pode e que já foi o ofensor.

A dualidade entre paz e guerra, ofendido e ofensor é que nos coloca diretamente em estado de falsa promessa de paz interior imediata. Quando eliminarmos esses conceitos que estão nas polaridades é que poderemos lidar com as questões interiores. Quando o mal está fora, o perdão faz todo sentido. Quando compreendemos que o mal, a batalha, a guerra, o incômodo está dentro, o perdão não faz sentido algum. É interessante como essa construção da ideia do perdão vem sendo instalada há séculos, mas me chama atenção quantas pessoas tem usado e cunhado um termo tão delicado como ideia de saída, de auto libertação.

Vocês podem me questionar: Camila, você está dizendo que não devemos perdoar? Sim e não. Estou dizendo que não se deve perdoar porque o pedido do perdão não faz sentido. Não é o ato interno, mas o ato externo. O ato interno do perdão não se relaciona com o outro, é um lugar absolutamente particular. É como se absolvêssemos a nós e ao outro dessa relação de poder. É nos permitir e permitir ao outro a noção, a compreensão ampla da natureza humana. Enquanto sou um ser falível, não preciso que se curvem a mim como se eu não fosse passível de falhas.

“Mas Camila, ele me traiu. Eu devo ou não devo perdoá-lo? Percebem quantas pessoas ficam nessa estrutura de pensamento? A questão que precisaria ser posta, não está na mesa. Essa questão central não se relaciona com a ideia do perdão. A ideia central é: Qual o sentido da sua relação com a pessoa que você considera ter falhado? As respostas estão num âmbito tão particular, que não cabe ao outro, aquele que “falhou” decidir e, muito menos, definir o significado da ação.

Nada de nhe nhe nhe: sente aqui meu filho, e vamos conversar sobre feminicídio.

Quero começar o texto pedindo sinceras desculpas por tamanha ausência. Sei que muitas pessoas seguem meu blog e devem ter estranhado tanto tempo sem um texto. Nos últimos meses a vida pesou por aqui. Tenho tentado respeitar os meus limites mas nem sempre isso é possível, não é?  Resolvi escrever sobre um tema que não gostaria que fosse tão recorrente: o feminicídio. 
Quantas mulheres morreram nesse último mês no Brasil vítimas de homens filhos de uma cultura machista? Tenho um filho, olho para ele e penso: como estarão as mães desses homens brutais? Assassinos? Como seria olhar para um filho, que aparentemente era uma pessoa dentro do espectro de normalidade, e que da noite para o dia passou a ser um  assassino? Esses homens, filhos de uma cultura extremamente machista, se portam perante o mundo como maiores do que o próximo. Não consigo imaginar que homens assim se sintam somente superiores às mulheres: questiono a postura desses homens diante de qualquer outro ser que eles considerem inferior. 
Me dói imaginar relações tão abusivas e dependentes psiquicamente, baseadas numa vã esperança de que tudo melhore e de que no dia seguinte tudo fique bem. Só que não fica. Mulheres são mortas, espancadas, torturadas diariamente, e estamos sempre de mãos atadas. Mas ainda me intriga uma questão: como transformar essa situação? Leis mais severas aos assassinos não resolverão nada no que diz respeito à agressão contra a mulher. 
Queria propor um olhar de base. Como eu disse, eu tenho um filho. Olho para ele todos os dias e penso: o que será que ele pensa das mulheres, ou, no caso, das meninas? Vejo o brilho nos seus olhinhos quando fica a me admirar e ao mesmo tempo, levantar opiniões nessa fase infantil em que os meninos não gostam de meninas e as meninas não gostam de meninos. 
Pausa!!!
Ok!! Isso é uma fase. Mas o que ele me diz sobre não gostar de meninas? 
“Mamãe, eu não gosto de meninas porque elas brincam de coisas chatas”. Ok! 
“Mamãe, eu não gosto de meninas porque elas falam muito de príncipes”. Ok! 
“Mamãe, eu não gosto de meninas porque elas são fracas e cheias de nhe nhe nhe”. Não… isso não é ok! 
Vamos lá meu filho: o que são esses nhe nhe nhes? “Ahhh mamãe elas ficam cheias de bla bla bla”. Percebo imediatamente que ele não sabe explicar o que exatamente é irritante no comportamento das meninas. E logo questiono: e o que elas dizem de vocês, meninos? “Que não gostam da gente porque somos fortes”. É claro que não dizem isso!!! Fico até com vontade de rir. Porém, o assunto é sério: me vejo diante de uma super projeção que, se não for cuidada desde cedo, se tornará uma “verdade absoluta”.
Senta aqui meu filho: as meninas também são fortes, e talvez o que vocês meninos não gostem nelas é o fato de não terem permissão para entrar no mundo delas. O mesmo acontece com as meninas: talvez elas não gostem tanto dos meninos porque não conseguem entrar no mundo deles. Esses mundos estão dentro do que vocês são, mas não porque vocês são meninos ou meninas, mas sim porque vocês mostram o tempo todo uns aos outros as diferenças humanas. Todas as vezes que não for possível adentrar um mundo desconhecido ou não permitido, iremos nos irritar.
Ainda não tive nada dessa conversa com ele, porque ele, ainda muito pequeno, não conseguirá atingir a dimensão do que é ser diferente. Mas, com cuidado, fui dizendo: meu filho, se elas ficam cheias de bla bla bla, saiba que vocês também! Cada grupo tem o seu bla bla bla. Ele arregalou os olhos, e percebi que ali alguma coisa fez sentido.

Não quero que meu filho cresça crendo na ideia de bla bla bla, mi mi mi, chilique, nhe nhe nhe, como sendo “coisa de mulher”. Esses padrões de comportamento são puramente humanos, e enquanto alguns adultos maduros aprendem a lidar com suas birras, outros, infelizmente, matam.

Em 2016 não vamos lutar pelo diferente!

A dor dilacerante de ser diferente, será que nossa maior luta deveria ser para uma ampliação da consciência quanto as diferenças? Não seria necessário percorrer um caminho maior? Será que quando ampliamos a consciência para nossa noção de igualdade não estaríamos mais propícios a aceitar a pluralidade? 
Quando penso na luta pelas diferenças algo me aperta o peito. Estou lutando pelo que? Para que o outro, que é visto como algo estranho, seja aceito? Eu não quero que ninguém seja visto ou classificado como sendo estranho que precisa ser incluído. Não me sinto nem um pouco a vontade em lutar para que o diferente seja aceito ou tolerado. O que desejo é a integração. Integrar em mim que sou igual dentro da pluralidade e integrar socialmente a pluralidade humana. Esse “diferente” classificado socialmente é algo que está submetido ao desejo de muitos em ter alguém abaixo daquilo que eu considero “normal”. Se estabele uma relação de poder. 
Somos tão diferentes assim? Me vejo mais igual do que diferente. As nossas escolhas caminham por estradas, muitas vezes opostas, mas ambos buscam por um caminho. Nossos gostos e ideias são ligeiramente divergentes mas ambos possuem gostos e ideias. Que ideia é essa que estamos nos enfiando? Olhar a pluralidade pela perspectiva da igualdade me soa coerente . Olhar a pluralidade como algo comum ao ser humano me parece mais possível. 
Penso que na base da luta dolorida daqueles que estão nas camadas a serem incluídas, tem algo maior do que ser aceito. Tem uma necessidade de inclusão da normalidade na pluralidade. A palavra diferente no dicionário, sugere algo além das singularidades, tem estranho, esquisito, excêntrico. E quem não é? Aqueles que são contra a naturalização da vida lutam para manter o poder e ter sempre alguém subordinado a que? Essa imagem me remete claramente a manutenção da escravidão. Socialmente precisamos ainda de seres inferiorizados? Será que a luta pela diferença não seria um tiro no pé? Não seria a manutenção do discurso de não aceitação? Essa é minha mensagem de boas vindas ao novo ano. Que em 2016 sejamos mais próximos uns dos outros. Que a proximidade seja de alma e não de discursos de sofá. 

O casamento como um colar de pérolas.

“Um ser humano amar o outro: talvez seja esta a mais difícil de todas as tarefas que se nos impõem, o último teste e a prova final, o trabalho para o qual todo outro trabalho não passa de preparação” R.M.Rilke
Ao ler o livro “No caminho para as núpcias” me questionei por diversas vezes quando a autora fala em uma alma irmã, se não deveríamos, de fato, irmos ao encontro dessa alma para assim, nos dispormos ao companheiro (a) concreto (a). 
Esse início de Rilke me fez pensar, não estaríamos nós nos trabalhando para o amor ao próximo, já que, é no relacionamento que podemos trabalhar a nós mesmos se nos permitirmos olhar e aceitar o outro e consequentemente nos olhar na relação?
O casamento, a cerimônia, a festa, tem para muitas pessoas um significado social onde perante aquele grupo o casal se apresenta como instituídos no matrimônio, mas, será que esse casamento é de fato o caminho para as núpcias?
De acordo com a Linda S. Leonard:
“No plano mais profundo, as núpcias que procuramos são realmente as núpcias dentro de nós mesmos. Ter relacionamento pleno e saudável com outra pessoa exige que eu mesmo seja pleno e saudável”.
Sim, precisamos olhar para dentro para nos desvencilharmos das projeções idealizadas e conseguir olhar a si mesmo e ao outro. Somente assim o casamento de fato se tornará verdadeiro. Você aceitou casar-se com o outro e não com a imagem que o desejo lhe impôs. Conhecer a si mesmo é o caminho para a possibilidade do encontro verdadeiro. 
A autora ainda traz um trecho que considero precioso para a construção da união que diz que o maior desafio para as núpcias é a morte. Que morte seria essa? Ao discorrer na leitura, Linda fala sobre a morte nas núpcias: 
“(…) Casar-se é morrer em prol do Outro, é renunciar desejos, fantasias, ilusões e obsessões do próprio ego, e respeitar o mistério maior do relacionamento”. 
Quando um casal aceita a união, aceita o desconhecido e o desconhecido gera medo e consequentemente exige uma mudança na vida, já que, naquele momento você abriu mão de viver sua própria vida para vivê-la a dois. A renuncia significa a morte e ao mesmo tempo o nascimento de uma nova forma de viver. O seu parceiro foi escolhido por você e sendo assim, como escolha, deve ser feito um elo maior do que o externo, um casamento maior do que um encontro de lei, para ser de fato um encontro de almas. Almas que  juntas respeitam o parceiro, a si mesmo e o casamento.
No momento em que a união se dá nos moldes de encontro de almas, o que é vivenciado é o amor. O amor quando se torna o carro chefe compreende o meu, o seu e o nosso lugar  no mundo. Não há disputa de poder pois, não é o meu ou o seu jeito, é aquele jeito que escolhemos e construímos juntos, o nosso jeito. 
Casar é dar espaço para mais um nesse história, é aceitar a construção do nosso lugar. O matrimônio não é meu, nem seu, ele é nosso e esse lugar deve ser preservado.
Penso que o casamento é como um colar de pérolas preciosas que deve ser construído a dois. Cada um tem as suas pérolas e com paciência e dedicação se unirão. Deixam de ser solitárias e passam a ser parte da construção de um único e precioso colar. As pérolas são nossos valores, ensinamentos, medos, sonhos, expectativas, desejos que ao serem trabalhados em nós podemos juntos escolhermos quais estarão no colar. Depois de pronto, essa joia precisará ser cuidada com zelo, dedicação e acima de tudo amor, pois ele é o maior e o mais precioso bem da união.