A bolinha dourada.

Esse mês ouvi uma voz. Não foi uma voz qualquer, foi uma voz que veio ao mundo depois de mais de meio século. A voz de uma mulher, contida, reprimida, com desejos julgados e nem sequer olhados. A voz de uma mulher cansada de ser subserviente a um pai, a um conceito religioso, a um marido e um modelo de mulher recatada. A questão foi que escutei um pouco mais, escutei essa voz mas não sei ao certo o quanto ela escutou. 


Tudo começou com um brinco. Tantos anos desejando um brinco e por obediência aos homens e deuses não tinha forças para ir além. Mas isso estava com os dias contados. Ela furou. Não furou só a orelha, furou a barreira, viu a verdade do outro como uma furada. Ela furou, furou e furou. Mas tudo ali tinha um limite, me doeu ver o limite de seu próprio desejo. O pai não poderia jamais ver o furo, sabia da impossibilidade disso e ao escolher seu brinco mais lindo, caiu naquela bolinha pequena,ouro brilhante de um bebe. Tudo tem um limite na Alma dessa mulher de mais de cinquenta anos. 

Fiquei com ela o tempo todo e só agora, muito próximo da virada do mês consegui sentar e escrever. Quantas almas embotadas, quantas almas aprisionadas sem nem sequer serem percebidas por si mesmas. Quantas almas adoecidas com o olhar convicto de uma saudável maneira de viver. Vivemos numa alienação plena. Isso muito me angustia. Olho nos olhos dessa mulher e sinto que sua dor nem sequer é percebida. Olho profundamente nos olhos dessa mulher, que támbem cria uma filha e tem orgulho de uma adolescente ser mais parecida com uma criança. Ali, dois femininos morrendo. No leito da própria morte algo gritou e furou mas um outro lado, da própria morte, vê tudo se definhar. 

Confio na vida, confio que em algum momento outro furo virá, mas, será que o próximo furo não será acompanhado de mais um brinco de bebe? Como está difícil poder existir em um mundo tão repressor com ares de liberdade falsa. Como está difícil seguir adiante se os próprios discursos não são nada próprios. Como está difícil encontrar pássaros presos, com asas machucadas e achar que só porque cantam, são livres de Alma. Estamos nos enganando e acreditando nesse engano. 

“E, antes de aprender a ser livre, eu aguentava – só para não ser livre” – Clarice Lispector 

Morrendo em mim: um caminho mais que necessário.

A morte é sempre um tema aterrorizante para muitas pessoas. O medo da morte, do pós morte, de perder alguém, de sentir que a vida não está em nossas mãos. Ver tudo passar rápido e com a mesma velocidade, o pensamento de que algo poderia ter sido diferente. A morte está longe, distante e muito mais próxima da velhice, ledo engano. Morremos todos os dias, todas as horas. Sentimos saudades de algo que já morreu, um momento, um olhar, um abraço. Vivenciamos diariamente o luto e a dor de algo que ficou para trás. Mas por que ainda temos medo de morrer? Por que sentimos medo das mudanças?
O tempo passa muito rápido e quando temos filhos percebemos com uma clareza, nunca antes vista, de como o tempo é ligeiro, deixa marcas, foge do controle e te mostra o quanto você pode viver muito mal. Não falo de viver bem todos os dias na maior intensidade, em ser grato, nada disso. Mesmo porque a dor e o sofrimento podem ser muito eficazes quando o assunto é viver bem. Digo viver bem no sentido da aceitação, de se curvar diante da vida e receber tudo que ela te traz. Viver bem pode simplesmente te custar muito caro, custar as dores de lutas que aparentemente não são suas. Pode te custar dores intensas de cabeça ou até mesmo uma coluna travada. Talvez com todo desconforto você perceba que está vivendo bem. Resolveu que o mundo que está aí fora, todo cheio de achismos e piadas de mal gosto diz muito respeito a você. Que exigir uma voz mais ativa cansa e ao mesmo tempo te traz sentido novo. 
O encontro com o mundo pesado te mostra um pedaço escuro da vereda. Te coloca de volta ao teu próprio caminho e, ao mesmo tempo, você nota que talvez estivesse andando em uma rua iluminada que não era sua. Aquela ali, aquele beco, aquela lanterna velha no chão. Esse sim! Esse sim pode ser o seu trajeto. Nada de seguro, nada confortável e muito menos tão iluminado. Olhar pra sombra é mais do que olhar para aquilo que está fora, olhar pra sombra é se ver nela. É tudo uma coisa só, não precisa ser integrado, basta ser reconhecido, assim como você reconhece seu rosto. Integrar pressupõe algo que esteja fora, que não seja conscientemente seu. Quando entendemos que tudo somos nós, algo muda. 
Ninguém me mostra quem sou, nem mesmo sei quem sou, mas sei que tudo me possui e tudo eu possuo. Sou responsável por cada passo dado, por cada palavra dita e por todas que não foram sequer mencionadas. Sigo meu caminho, morro todos os dias, vivo a morte e a vida como uma só. E como disse Nietzsche: ” Depois que cansei de procurar aprendi a encontrar. Depois que o vento meu opôs resistência, velejo com todos os ventos.”

A chave que não trancou

É frequente encontrarmos almas descontentes com suas vidas, escolhas, trabalho, casamento, amizade, família, e uma infinidade de “importâncias desimportantes”. De maneira recorrente me deparo com essas almas perdidas e que aparentemente se percebem sem caminho. 

Muitas pessoas dizem que precisam seguir em frente, fechar a porta e não olhar para trás como se num passe de mágica fosse possível esquecer parte da vida. Os sonhos se confundem com desespero, com desalento, se perdem da função de guiar no caminho da vida. Quando os sonhos se confundem eles ficam frágeis e a mercê de impulsos primários de prazeres sem significados.

Afirmativas como “Não consigo fazer”, “Não me sinto capaz de arriscar”, “Meu medo não me deixa ir”, me faz pensar o que essa pessoa precisa juntar e descobrir em si para seguir o impulso vital que, por algum motivo, está sendo bloqueado impedindo a alma de se manifestar.

Todos nós temos nossos impulsos, sonhos, guia e caminho, no entanto, nossos medos,receios e as infinitas justificativas impedem de identificar o que nos é, de fato, importante. Muito me questiono quantos sonhos se perderam nessa vida, quantos desses sonhos deram lugar a imagens fugazes?

Reencontrar a alma é dar espaço para a sua própria fala, o seu próprio sussurrar. Abrir caminho para que o singelo sussurro transforme-se em uma majestosa linguagem é dar vida a vida.
Prestar atenção nas ideias súbitas pode ser um caminho de encontro com a alma, arriscar-se, saltar, ir adiante é simplesmente o passo que pode ser o mais importante.

“Descobri que adoro fechar portas,
As portas fechadas me presenteiam,
Cada porta fechada me traz paz,
Cada porta fechada um passado jaz.
Atrás da porta sim, 
Atrás da porta senti medo, tristeza, angústia,
Atrás da porta senti desespero, aperto, decepção,
Atrás da porta não via saída,
Atrás da porta só via a mim e a minha solidão.

Ao descobrir a fechadura, a chave e o trinco senti,
Senti alegria, esperança, conforto, segurança e gratidão.
Descobri que fechar a porta é abrir,
Abrir não ao infinito e as suas possibilidades,
Mas abrir caminho para a minha vivacidade, 
Abrir para a escolha não é um simples abrir,
É simplesmente me abrir.

Aprendi a agradecer a porta que se fechou e,
Ao passado que ali ficou.
O belo de todo aprendizado foi o que gerou,
A chave que não trancou.

Aprendi que a chave de nada me serviu,
O mais lindo foi o que dela surgiu,
A porta que amei fechar não precisava da minha chave, 
A porta que amei fechar estava ali a esperar,
Pacientemente pelo meu passar”.



Enfim, vamos permitir nos encontrar com aquilo que realmente somos, não só com os nossos erros, mas sim com nossos sonhos. 

O Pai que não mora em mim

No XIX Congresso da Associação Junguiana do Brasil, que aconteceu em Gramado, onde fui apresentar um trabalho, tive o prazer de assistir a palestra do Dr.Roberto Lehmkuhl entitulada “Um mundo sem pai” que me fez refletir e ter uma vontade grande de falar sobre o Arquétipo Paterno. Para isso, vou me basear no artigo do Dr. Roberto, disponível no site da http://www.ijrs.org.br/artigos.php?id=125 .

Para dar início a esse texto, coloco um trecho do artigo de Lehmkuhl, que diz: “A marca da experiência sob a batuta do pai é a tensão e a diferença de potencial. Se por um lado presentifica a dor, o desconforto e o conflito, por outro gera energia e vitaliza ao fazê-lo.O que a mãe provê é o preenchimento; o pai, a falta, o sentimento da falta, mas também a tecnologia e os recursos para o preenchimento. A mãe saciava a fome, o pai instrumenta o filho para, por conta própria, experienciar e, com seus próprios recursos, lutar por suprir. A prescrição vem do pai; o comportamento fica por conta do filho; o bom pai não dá o peixe, mas informa e ensina sobre técnica da pescaria”.

Essa citação me fez refletir sobre a situação atual de muitos homens e mulheres que encontro em meu consultório. Quantos não conseguem se relacionar com o mundo pois lhe faltam o masculino? O masculino no sentido da luta, do ir, do ter disposição para a vida. Muitas pessoas encontram-se paralisadas, faltam-lhe o pai. O bom pai, como diz o autor, o pai que ensina a pescar, que orienta e que empurra para a vida. Tenho me deparado, principalmente com homens, que se perderam quanto ao que devem fazer. Como devem agir, e caem nos vícios para sentirem-se mais seguros de si, como se fosse no concreto buscar o pai bom, o masculino que ensina, que dá coragem e mostra o caminho. 

Situações onde a busca do prazer é algo compulsivo é uma representação forte da ausência do pai, um exemplo, são os vícios. O vício relacionado a bebidas, drogas ilícitas, a  sexualidade que, para muitas pessoas são supervalorizada e por outras tantas é visto como algo a ser temido. Pessoas que não conseguem desenvolver-se no trabalho, em atividades produtivas e criativas. O pai em nossa sociedade é função importantíssima para o desenvolvimento psíquico de qualquer pessoa. A ausência de um pai bom pode gerar indivíduos frágeis, inseguros, rígidos e sem limites. 

Como diz o autor: “Será que alguém sabe quem é seu pai? Esta mesma pergunta é feita todos os dias por homens e mulheres que não encontram sentimentos de proteção, autoridade, confiança, sabedoria e senso prático para viver suas vidas”.
Quantos não vivem na insegurança e na falta de confiança em sua jornada da vida? Como coloca Moore na citação de Roberto Lehmkuhl, “Ás vezes, precisamos sentir-nos ausentes e vazios para evocarmos o pai”.
A falta pode ser uma mola propulsora para evocarmos o pai. O que isso quer dizer? Muitas vezes é no sofrimento que conseguimos perceber a força que existe em nós e com isso seguir com determinação, coragem e auto-confiança para os desafios da vida, sem a necessidade de deslocar para qualquer vício a força do pai bom, do masculino.