A medicalização compulsiva e a alienação da vida.

Hoje me deparei com um texto e ao refletir sobre ele decidi que esse seria o tema: A medicalização compulsiva e a alienação da vida. 
Ao ler “O poder da psiquiatria”, reportagem de capa da revista Cult, me deparei com um dado alarmante ao número crescente de patologias no novo DSM 5. DSM é um Manual de Diagnósticos e Estatísticas das Perturbações Mentais. Bom, de acordo com a reportagem de Vladimir Saflate, professor livre docente do departamento de Filosofia da USP, houve um aumento significativo de patologias mentais. O número passou de 265 do DSM 3 para 450 nessa nova edição. Esse aumento assustador me parece denunciar uma medicina mercadológica. 
“De fato, com modificações, como as que diminuem o luto patológico de dois meses para 15 dias ou que cria categorias bisonhas como o transtorno disruptivo de desregulação de humor, o vício comportamental (behavioral addiction) ou o transtorno generalizado de ansiedade, dificilmente alguém que passa por conflitos psíquicos e períodos de incerteza entrará em um consultório psiquiátrico sem um diagnóstico e uma receita médica” (Revista Cult, Out. 2013 Ed. 184)
A necessidade de se abafar todo e qualquer sofrimento e patologizar a vida tem contaminado grande parte da população. Esse cenário é recorrente, muitas pessoas procuram a terapia e chegam com diagnóstico pronto, seja ele, pesquisado na internet ou numa prescrição psiquiátrica. Um trabalho árduo para nós psicólogos. Trabalhar a frustração, a perda, o luto, as dores da vida e conseguir identificar, de maneira clara, casos que necessitam de medicação ou não, ficou um pouco mais complicado. A sociedade, a indústria farmacêutica, a mídia contribui para a manutenção de uma alienação dos enfrentamentos naturais da vida. Para qualquer desconforto há um fórmula capaz de amenizar qualquer dor. 
Há uma necessidade dos pacientes para o enquadramento em modelos classificatórios de patologias mentais. Mal conseguem pensar, à serviço do que está aquela dor? Ou ainda, caso a doença exista, à serviço do que ela está? Não nego a existência das patologias, somente me incomodo com o excesso de classificações e  diagnósticos precoces. 
Fico a pensar, o que leva tanta gente a buscar um medicamento para apaziguar os desconfortos da vida? Será a intolerância à dor ou a escolha por não olhar a si mesmo? Qual o significado de ser ou estar classificado em uma patologia mental? 
A busca do auto conhecimento, a meu ver, é fundamental para um olhar crítico e perspicaz diante do sofrimento. Saber se de fato os sintomas aparentes são consequências de um processo natural ou se mostram um caráter patológico é fundamental para evitar qualquer enquadramento. Consultar um profissional é sempre a melhor opção. A busca de profissionais capazes de olhar além do sintoma é uma possível saída para evitar a medicalização compulsiva.