A ética e o equívoco da reciprocidade

Há algum tempo penso sobre o que fazemos com as ideias adquiridas durante a vida e o quanto nos precipitamos em fazer pelo outro o que gostaríamos que fizessem por nós.
Crescemos em uma sociedade onde a ordem moral religiosa tem força perante nossos comportamentos. Sendo assim, se não questionarmos, agimos de maneira egoísta e pouco empática. Entendo que há necessidade de uma ética de reciprocidade, no entanto, a meu ver, precisamos compreender qual reciprocidade ética é essa que ao invés de nos aproximar um dos outros, pode afastar e nos colocar cada vez mais próximos de um comportamento egoísta. Quem nunca ouviu?  Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem para você.
Logicamente podemos levar essa fala de uma maneira radical e óbvia. Não gostaria que ninguém matasse alguém que eu amo. Não gostaria que me roubassem, etc. Leis de convivência social são necessárias para que haja minimamente o respeito ao território do outro. No entanto, onde aplicamos de maneira equivocada esse dizer e que nos afasta do nosso próximo? 
Quando consideramos que o melhor para o outro é aquilo que é o melhor para mim me impede de conhecer e me aproximar de qualquer pessoa, afinal aquilo que eu vejo como melhor é o meu melhor. Compreender que na intolerância nos distanciamos e criamos barreiras preconceituosas e que destroem as relações. 
Camille Paglia, disse em uma entrevista à revista Cult: “Creio que é obrigação do intelectual permanecer conectado à imaginação popular”.
Quantas pessoas se mostram intolerantes a manifestações culturais da periferia ou da burguesia dizendo que tal música não é agradável, é baixa, e muitos outros adjetivos pejorativos e degradantes que colocam nosso semelhante como inferior por não ter o mesmo gosto musical? A incapacidade de olhar para qualquer pessoa e enxergar nela o seu valor não nos faz absolutamente capazes de agir por mais ninguém além de nós mesmos. Esse é um singelo exemplo diário mas significativo quando percebemos em nós tal olhar.
O meu valor não pode ser maior do que o do outro, isso se dá nas menores atitudes e nas maiores demonstrações de intolerância ao próximo. Como mantermos nosso centro e equilíbrio quando precisamos que o outro se torne pior para que eu cresça diante do espelho? 
Conhecer a si mesmo te faz mais tolerante consigo e consequentemente mais humano com o outro. Começo esse ano fazendo um convite para olharmos para dentro. É importante o autoconhecimento pois, nos aproxima de nossa alma e nos permite entrar em contato com a nossa inteireza. E para finalizar, trago uma frase muito bonita do C.G.Jung:
“Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der”.

O velho e o novo: uma visão psicológica

Resolvi trazer um tema muito comum na atualidade. Busquei nas mais diversas literaturas construir um olhar para a sociedade de hoje. Essa sociedade que saiu da época do autoritarismo para seu oposto. Na psicologia estamos falando da relação arquetípica velho-criança, senex-puer. A dinâmica relacional senex- puer pode ser positiva quando a criatividade, o impulso do puer entra em equilíbrio com a sensatez do senex. O problema é quando aspectos negativos de ambos dominam a estrutura psíquica e trazem desequilíbrio em nossas vidas. É importante ressaltar que, a relação arquetípica do puer e do senex não necessariamente tem a ver com a idade cronológica.
Como o senex, o velho em nós, pode interferir negativamente em nossas vidas? O senex em seu aspecto negativo torna a pessoa rígida, intransigente, autoritária, controladora. No livro “Puer e Senex: dinâmicas relacionais” de Dulcinéia da Mata Ribeiro Monteiro, a autora traz a discussão com diversos autores sobre o arquétipo senex-puer. No texto de Carlos Bernardi, o senex, em sua faceta negativa, tem grande dificuldade com o novo, podendo se tornar pouco hospitaleiro com a diferença. O senex se torna rígido e dá pouca chance ao novo.

No entanto, há aspectos positivos e importantes do senex que na relação dinâmica com o puer é imprescinsível nos dias de hoje. O autor traz a seguinte colocação: “A rigidez do senex pode servir como ponto de resistência contra mudanças que não geram nenhum sentido e são vividas mais como perdas do que como ganhos”. Vivemos em um tempo onde as mudanças sem sentido acontecem a todo momento, perdendo muitas vezes valores importantes para o equilíbrio do ser humano. Sendo assim, a resistência, nesse sentido, ajuda a manter certos valores como por exemplo, o respeito ao próximo.

O lado puer, a criança em nós, é  muito falado na atualidade. Quantas pessoas buscam incansavelmente manter a sua juventude a todo custo? Trago agora aspectos negativos do puer e como isso interfere em nossas vidas. Nesse ponto, o puer não se liga a realidade, percebe-se que o momento certo nunca chega. Em sua faceta negativa, é apressado, inconsequente, sem limite, irresponsável, e vive na eterna juventude. Como traz o autor, quem não conhece pessoas que sob os efeitos dos vícios, seja o álcool, as drogas ilícitas, as compulsões que aliado a irresponsabildiade gera grande sofrimento?

No entanto, o puer também traz seus aspectos positivos, que são aquele que permitem o novo, a criatividade, a possibilidade, o entusiasmo e a energia. Carlos Bernardi diz, quem não conhece alguém que jogou tudo para o alto numa atitude aparentemente irresponsável, mas que jusrtamente por essa irresponsabilidade sua vida tomou outra direção?

Esse lado jovial do puer dá a possiblidade da trasngressão que aliada a responsabilidade do senex permite que a pessoa progrida, se desenvolva. A relação dinâmica do senex-puer é saudável e um possibilitador de mudanças produtivas. 
No texto desse mês escolhi trazer algo que não podemos pensar como estático, mas sim,  dinâmico que nos possibilita refletir sobre nossas condutas e buscar sempre o equilíbrio dessa relação senex-puer em nossas vidas.

O Relacionamento dos Opostos

Muito ouvimos dizer: o meu namorado, marido é exatamente o meu oposto. Quantos casais conhecemos que dizem estar em companhia de uma pessoa tão diferente? Nesse texto vou trazer uma reflexão sobre a sombra nas relações conjugais. Será que aquilo que o outro tem, que nos foi num primeiro momento objeto de admiração está tão distante daquilo que sou? Para isso, irei me embasar no capítulo de  Maggie Scarf do livro “Ao Encontro da Sombra”.
Trabalhar com a sombra não é trabalhar com algo só negativo, tem um aspecto de potencialidades que podemos enxergar no outro e não conseguimos perceber em nós. No relacionamento podemos notar o quanto aquela qualidade que foi tão atraente tornou-se motivo de grandes discussões. A autora traz em seu texto a importância de diferenciar aquilo que de fato é sentimento, desejo, pensamento que está dentro de nós e aqueles que estão dentro do parceiro. 
É necessário delimitar e perceber o que é nosso e o que é do outro. Por exemplo, você é uma pessoa sociável, comunicativa, positiva e vive com outra pessoa caseira, pé no chão, estável e pessimista. A segurança que ele te trouxe no início passa a ser um problema depois, pois o que prevalece é a monotonia. E aquilo que para ele era motivo de admiração, pois via uma mulher alegre e com vigor passa a ser visto como superficialidade. Ok, e agora? 
A autora traz o argumento de que as características estão em ambos, o segredo é poder assumi-las, perceber que um não precisa carregar pelo outro uma necessidade que é do relacionamento. Normalmente é feito um acordo inconsciente para que as necessidades sejam supridas a partir do outro, gerando assim um conflito interpessoal. 
É importante que haja a transformação do conflito interpessoal para um conflito intrapsíquico, ou seja, poder recolher as suas necessidades, as necessidades do outro e as do relacionamento, diferenciar e assim evitar uma projeção e uma expectativa quanto ao comportamento do parceiro. Ambos unem-se para conhecer do outro e de si mesmo.  
Para finalizar trago um parágrafo da autora que deixa evidente o quanto tudo está interligado, e que os opostos nada mais são do que a nossa sombra no relacionamento.
“Muitos casais parecem ser pólos opostos. São como marionetes num espetáculo: cada um deles desempenham um papel bem diferente do outro na parte do palco que está aberta ao olhar do observador objetivo; mas, fora de vista, os cordões das marionetes se emaranham. Eles estão profundamente enredados e emocionalmente interligados, abaixo do nível da percepção consciente de cada um. Pois cada um deles incorpora, carrega e expressa pelo outro os aspectos reprimidos do eu (o ser interior) do outro”.