Em 2016 não vamos lutar pelo diferente!

A dor dilacerante de ser diferente, será que nossa maior luta deveria ser para uma ampliação da consciência quanto as diferenças? Não seria necessário percorrer um caminho maior? Será que quando ampliamos a consciência para nossa noção de igualdade não estaríamos mais propícios a aceitar a pluralidade? 
Quando penso na luta pelas diferenças algo me aperta o peito. Estou lutando pelo que? Para que o outro, que é visto como algo estranho, seja aceito? Eu não quero que ninguém seja visto ou classificado como sendo estranho que precisa ser incluído. Não me sinto nem um pouco a vontade em lutar para que o diferente seja aceito ou tolerado. O que desejo é a integração. Integrar em mim que sou igual dentro da pluralidade e integrar socialmente a pluralidade humana. Esse “diferente” classificado socialmente é algo que está submetido ao desejo de muitos em ter alguém abaixo daquilo que eu considero “normal”. Se estabele uma relação de poder. 
Somos tão diferentes assim? Me vejo mais igual do que diferente. As nossas escolhas caminham por estradas, muitas vezes opostas, mas ambos buscam por um caminho. Nossos gostos e ideias são ligeiramente divergentes mas ambos possuem gostos e ideias. Que ideia é essa que estamos nos enfiando? Olhar a pluralidade pela perspectiva da igualdade me soa coerente . Olhar a pluralidade como algo comum ao ser humano me parece mais possível. 
Penso que na base da luta dolorida daqueles que estão nas camadas a serem incluídas, tem algo maior do que ser aceito. Tem uma necessidade de inclusão da normalidade na pluralidade. A palavra diferente no dicionário, sugere algo além das singularidades, tem estranho, esquisito, excêntrico. E quem não é? Aqueles que são contra a naturalização da vida lutam para manter o poder e ter sempre alguém subordinado a que? Essa imagem me remete claramente a manutenção da escravidão. Socialmente precisamos ainda de seres inferiorizados? Será que a luta pela diferença não seria um tiro no pé? Não seria a manutenção do discurso de não aceitação? Essa é minha mensagem de boas vindas ao novo ano. Que em 2016 sejamos mais próximos uns dos outros. Que a proximidade seja de alma e não de discursos de sofá. 

Decepção, muito prazer!

Decepcionar-se! Onde começa a decepção? Esse sentimento tão forte e avassalador que aparece na surdina, tem um poder gigantesco sob muitas pessoas, talvez a maioria, talvez todas. O que fazemos quando somos o próximo da vez? Será mesmo que a decepção é algo pontual e trágico? Será que as pequenas decepções não seriam alertas de que nada nesse mundo está sob o domínio ou nosso conhecimento? Decepções pequenas, simples, do dia a dia.  Você prova aquele doce tão desejado e o sabor imaginado é melhor que o real. A expectativa de conhecer uma nova pessoa e não ser muito bem aquilo que a rede social mostrou. Mas pouco aprendemos com esses sinais, precisamos de fortes decepções. Essas possuem um poder grandioso de nos colocar numa posição mais humilde na vida, a posição de que não nos conhecemos como imaginamos. O problema é que normalmente não aparece a humildade em reconhecer que o maior gerador da ilusão foi você próprio. Com isso, o que surge é a raiva direcionada ao outro. 
O causador de decepção carrega uma imagem boa, quase perfeita para aquele que o admira e o trás num lugar de valor. O ser admirado se torna um campo seguro, um lugar aconchegante. O seu admirador não percebe que deixa de lado algo de extrema importância, a certeza de que nada sabemos e que pouco podemos fazer com relação a vida e o desejo do parceiro. Enfim, é a prova pura para enfrentar a realidade pouco “segura” da vida. Pouco sabemos sobre o outro, sabemos aquilo que nossos olhos conseguem detectar, mas isso está muito longe de ser a pessoa. Quando temos certeza de que conhecemos plenamente aquele que está ao meu lado, simplesmente mato toda a possibilidade de uma nova pessoa surgir. E talvez aquele que eu “conhecia” precisasse se emancipar. Assim, cabe a cada novo ser buscar a sua maneira de conseguir a liberdade diante das correntes do outro. O que nos resta diante disso é um olhar aberto para que o outro se apresente, no entanto, o caminho a enredar é o simples e penoso conhecer a si-mesmo. As minhas expectativas dizem muito do que sou. 
O que fazemos para nos colocar em condições tão vulneráveis ou ainda,  por que insistimos em idealizar o outro a ponto de mal enxergarmos que somos capazes de criar o parceiro de acordo com nossas próprias expectativas? Que ponto cego em nós busca tanto a falsa segurança no outro? Que desejo é esse desenfreado de achar que não podemos nos decepcionar? Por que insistimos em colocar a decepção como sendo responsabilidade de quem a causou? Não seria a própria cegueira a responsável por tamanha idealização?  O maior ressalve pela decepção não é aquele que causa, mas sim aquele que permitiu causar em si a idealização irreal. 
O idealizado deseja o olhar admirado e alguma submissão velada acaba sendo exigida. Por outro lado, idealizar o ser amado e esperar que cumpra o prometido diante de seus olhos é exigir que ele se mate. A morte de ambos acontecerá inevitavelmente, simultaneamente. O admirado assim como o admirador são incapazes de suprirem a si mesmos. E a grande questão fica: não seria a idealização uma voz que diz mais de si do que do outro? 

"Da maneira como falas, assim é teu coração"

Esse mês me deparei com uma citação muito bonita na qual gostaria de passear. 
“A fala não é da língua, mas do coração. A língua é meramente o instrumento com que se fala. Aquele que é mudo, é mudo no coração, não na língua (…). Da maneira como falas, assim é teu coração”. (Paracelso)
É comum quando nos encontramos diante de uma escolha ouvirmos de alguém próximo: “Faça o que o seu coração fala”. Dificilmente as pessoas se acalmam com esse tipo de orientação pois a ânsia de um caminho que vem pela lógica intelectual está presente diariamente em nossas vidas. No entanto, a sabedoria de tal observação permite ao outro a liberdade do contato com o seu próprio centro.
O mesmo serve para aqueles que muito falam, falam sem parar para observar-se. Emitem opinião sobre tudo e muitas vezes nem sequer prestam atenção a quem se fala. Caminhar para dentro de si, deixar que o coração, o afeto se exprimam é permitir além do racional algo mais próximo que pode acarinhar ou destruir o outro. 
Recentemente nos debates políticos vimos pessoas ofenderem sem nenhum censo crítico, mas o pior é perceber que tal fala é fala daquele coração. Corações duros, maldosos, se aliam a mentes e ideias obscuras e cruéis. Mas como atribuir ao coração o ódio? Uma imagem que naturalmente está tão ligada ao amor parece desconectar-se do aspecto maldoso. Seria possível essa dualidade dentro dessa imagem? Acredito que sim. Sementes boas e más possuem coração. 
Olhamos mais facilmente para a fala vinda dos corações mais nobres e também para a fala dos corações doentios e pouco nos permitimos o contato com o nosso. Admiramos pessoas que conseguem seguir tal “intuição” e ao mesmo tempo não nos percebemos capazes de aproximarmos do nosso centro. É um exercício árduo que nos faz perceber nossos sentimentos mais ricos e também os mais carentes. Quando excluímos a possibilidade de escutá-lo nos aliamos mais ao nosso racional. Quando nos fixamos na razão assumimos, unilateralmente, o risco de que o sentimento se apresente de maneira arcaica e impulsiva e, dessa forma, não há conexão com uma outra sabedoria. A polarização razão/sentimento traz prejuízos imensos em nosso caminhar. No entanto, se conseguimos ouvir a voz do coração, assim como ouvimos a voz da razão, nos colocamos diante de uma sabedoria singular e consequentemente abrimos espaço para um outro tipo de escolha. 
Um coração leve ou pesado diz muita coisa. Um coração sofrido conta muitas histórias, um coração alegre emite muitos sorrisos, mas um coração que não se faz ouvir se torna um mero órgão bombeando sangue. O que dizer de um coração não ouvido? Ele proporciona a vida, todavia uma vida não vivida se torna uma sobrevida. 
Viveremos ou sobreviveremos? 

Quando o ódio guia a vida

Pensar nesse sentimento é imediatamente tentar recusá-lo. O ódio não costuma ser visto como parte da psique tentanto trazer um alerta para a consciência. Evitar esse sentimento é negá-lo, negá-lo é deixá-lo atuar sombriamente.
Quando o ódio age na sombra ele destrói, torna-se um obstáculo no fluir natural da vida. Traz angustias, desespero, sensação de vazio, destrói relacionamentos, cria uma sensação real de perseguição e o mais importante, o mal sempre se concentra no outro. 
Esse mês trago o texto de Sônia Lyra, “O ódio”. A autora discute esse sentimento como sendo o “diabo” em nós. Aquele que traz obstáculos e impede nosso desenvolvimento. O ódio coloca o “eu” no centro, no foco e, desfoca o sentido real da vida. Ele nos tira a paz, nos põe em estado permanente de alerta como se precisássemos nos defender do mundo. No entanto, quando tomamos consciência percebemos sua função. Olhar para o ódio que nos acomete, nos permite uma abertura de mente, uma conexão com o nossos reais problemas e nos dá a possibilidade de mudança. No entanto, vamos ver como Regina Lyra, aponta esse sentimento nas relações. 
“Nada para nós tem verdadeiro VALOR, sequer nós mesmos. Nos transforma em comediantes de uma comédia em que queremos dos outros uma coisa: que acreditem em nós. É o “eu” que está sempre em jogo. Há um desejo contínuo de VINGANÇA. A vingança gira em torno da REVOLTA e do RESENTIMENTO. Consciente ou inconsciente ela está sempre ali. Como derrubar o outro? Como vou persuadir os demais de que o outro não presta, não tem valor?” (Caixa alta da autora)
O ódio se representa no mal que eu vejo no outro. Perceber a projeção é nos dar a possibilidade de conscientização e assim nos reconectar com o nosso sentido de vida. O ódio, o mal entregue a um alguém qualquer, nos cega e nos traz a nítida sensação de estarmos certos. A razão se torna nossa inimiga pois, como conselheira do ego, nos mantém presos a fantasia de que realmente somos uma única parte boa. O ressentimento nos guia para um caminho distante de nós mesmos. 
De uma outra maneira esse sentimento nos mostra que algo não anda bem, quando o medo, o pânico e a falta de esperança toma conta. Esses sentimentos nos dão alerta de qua algo reprimido impede o fluxo natural da vida e aí, é hora de procurar ajuda.