Acordo e não sou nada: Bom dia Vaidade!

Assisti algumas vezes o historiador Leandro Karnal falar sobre os pecados capitais. Vendo mais uma vez seu vídeo, decidi escrever sobre a vaidade como sendo o maior vício contemporâneo. Para iniciar a reflexão redigirei a fala de Karnal.
“Nós não concertamos mais as coisas e nós não concertamos mais as relações humanas. Nós trocamos. Ao trocar sapatos, computadores e pessoas que amamos por outras pessoas, vamos substituindo a dor do desgaste pela vaidade da novidade. Ao trocar alguém creio imediatamente “eu me torno alguém mais interessante” e, não percebo que aquele espelho continua sendo o drama da minha vaidade. O que eu não tolero na pessoa anterior é que ela me mostrou o quanto estou decaindo e envelhecendo ou sou desinteressante. Na nova pessoa eu exploro o quanto quero ser interessante, instigante e assim por diante”. 
Falar da vaidade como possibilidade de excluí-la de nossas vidas é substituí-la pela moral religiosa da humildade e como diz Leandro, a humildade não é bem vista nos dias atuais. Além disso, a extrema humildade é também uma vaidade. 
O dilema atual da vaidade é a comparação. Vivemos nos comparando aos outros e isso faz com que a vaidade se sobressaia mascarada por uma boa auto-estima. Sou mais do que o outro, me esforcei mais, acreditei no meu potencial. Coloco e classifico as pessoas de acordo com o que eu sou, a posição que alcancei. Assim olho para os que estão “abaixo” de mim e cresço para me fortalecer no que sou. Olho para os que estão acima e pouco reflito sobre o que preciso fazer para alcançá-los, simplesmente ajo. A insatisfação constante disfarçada na ânsia de ser alguém melhor, faz com que se corra o grande risco de: “tudo vale na corrida para ser alguém visível.” Que alguém é esse tão almejado? Caminhamos em qual direção? Que tudo é esse que vale mais do que encarar a si mesmo nos seus próprios aspectos desinteressantes? Ninguém pode ter tudo. Ninguém pode ser tudo. Ninguém é tudo. Nada é tudo. Tudo não é nada.  
Estamos criando crianças com boa auto-estima ou vaidosas e com pouco contato na relação humana? Ensinamos o descarte ao invés da tolerância? O ensino e o modelo me parecem estar mais próximo do desvencilhar. Tudo que exige aguentar e suportar se depara com uma saída bem confortável, fugir.  A fuga é do que? É de quem? Mas, como falar em criar crianças se vivemos num mundo modelo onde temos que ser visivelmente aceitos e admirados? Temos que superar o outro. Que necessidade é essa onde o descarte se torna a solução? Que caminho é esse onde a vaidade exacerbada é virtude? Por onde andamos quando decidimos não escutar? Que trilha é essa que percorremos na necessidade da nossa dor e da nossa conquista ter que ser maior e mais valorosa do que a do próximo? 

Como disse Fernando Pessoa em Orgulho e Vaidade: “O orgulho é a consciência (certa ou errada) do nosso próprio mérito, a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência do nosso próprio mérito para os outros. Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, pode ser ambas as coisas, vaidoso e orgulhoso, pode ser — pois tal é a natureza humana — vaidoso sem ser orgulhoso. É difícil à primeira vista compreender como podemos ter consciência da evidência do nosso mérito para os outros, sem a consciência do nosso próprio mérito. Se a natureza humana fosse racional, não haveria explicação alguma. Contudo, o homem vive a princípio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a noção de efeito precede, na evolução da mente, a noção de causa interior desse mesmo efeito. O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação”.


Por onde anda a vaidade? Em qual degrau está em nossas vidas? Como nos relacionamos com ela? Eis a questão!

O novo ano realmente existe?

Metas, metas e metas. Começamos o ano com uma infinidade de metas. No entanto, o que de fato representam em nossas vidas? Com frequência temos sido invadidos por uma torrente de selfies. Que necessidade é essa de paralisar uma imagem produzida de si? Seriam as metas algo próximo a esse olhar? 
O início de cada ciclo traz consigo a ideia fixa de mudança. Com sentimento pertinente e persistente de esperança, uma motivação alucinada em mudar atitudes, comportamentos, pensamentos, namorado, vida, profissão. Num passe de mágica tudo, a partir do momento em que fixo algo em mim, pode mudar. Mas as metas são uma necessidade ou mais uma repetição de algo que não correspondo no mundo? Essa super excitação com desejo desenfreado de torna-se diferente, e ao mesmo tempo exemplo de superação, não seria uma fixação narcisista? 
Não me canso de deparar com metas, listas com itens adicionais e pouquíssima reflexão. Toda justificativa gira em torno de “quero ser saudável”, “quero correr”, “preciso me alimentar melhor”, “serei meu próprio chefe”, “quero um novo amor, mas esse vai ser diferente”, “yoga”, “Pilates”, “meditação”, “zumba”, “dança dos famosos, ops, quer dizer, dança de salão” e mais um tanto de falas reproduzidas sem nenhuma reflexão. O que tem acontecido nesse tsunami de deveres sem sentido real? Muitos levam a vida na expectativa de corresponder o olhar do outro. Acreditam nas metas como sendo suas e ao se deparar com uma pergunta simples como: o que te levou a escolher esse caminho? Ou ainda: o que você espera desse encontro com essa meta? Um silêncio abismal aparece e logo uma mudança de fala. 
As pessoas se perderam de si e acreditam piamente que encontrarão num selfie parte ou algum ângulo que passou despercebido no espelho. Talvez precisassem fazer mais raio-x ou ressonância para quem sabe compreenderem que algo dentro precisa ser notado, ouvido, pensado, criticado, elogiado e principalmente conhecido. 
Enfim, ironias a parte, pode ter parecido um desabafo. Na verdade não é um texto onde quero desafogar ou incentivar as pessoas a procurarem terapia. É somente um questionamento: começarei um ano a partir de 2014 como uma linha reta ou como uma página virada? Página virada a gente só consegue quando algo de nós realmente transcende e não quando jogamos o calendário velho fora. 
Pensemos um pouco: partimos dia 1º de janeiro de 2015 de um novo lugar ou do mesmo lugar que estivemos em 1º de janeiro de 2014?

50 tons e o entusiasmo feminino

A trilogia 50 tons de cinza tem dado muito o que falar. Por esse motivo esse mês falarei dessa história que tem mexido tanto com a cabeça das mulheres. Ler os três livros foi tranquilo e instigante, o que me deixou em alerta foram os comentários que ouvi na faculdade, nas ruas e dentro do consultório.
É certo que ler a trilogia sem nenhuma visão crítica te faz cair facilmente em um romance fraco, sexualizado e idealizado. No entanto, por que mais de 30 milhões de pessoas, mais especificamente o público feminino, tem se interessado por tal tema considerado pornografia para mamães? Não é uma trilogia de grandes análises, mas, mostra o quanto o feminino está desesperado na procura do seu lugar no mundo.
Há alguns anos atrás o discurso social era baseado na conduta da mulher dentro de casa. Para conquistar um bom partido ela precisava ter boa mão, aí conseguiria “pegá-lo pela boca”. Com a revolução feminina e a tentativa de uma liberdade sexual inexistente, a mulher precisou buscar outros meios de conseguir o tão esperado bom partido. Seria hoje pegar o homem pela cama? Mais de 30 milhões de leitoras, o que tem atraído tantas mulheres?
Cristian Grey é um homem de sucesso, muito rico, o homem perfeito até que aparece a proposta sado-masoquista para uma garota recém formada e virgem. Ela entra de cabeça na relação, aceita o contrato sexual e embarca nesse romance dominador – submissa. Muitas críticas vieram. Análises sobre os personagens,  Cristian Grey é um psicopata e Anastasia Steele é uma mulher que gosta de apanhar é uma visão reducionista. É fato que muitas mulheres desejam seu Cristian Grey, mas quem é para elas o 50 tons?
O modelo do homem protetor volta com tudo. As mulheres entram em contato com esse modelo de homem idealizado, capaz de protegê-la. Precisamos entender, que proteção é essa? Dois pontos acho importante ressaltar, a proteção e a posição do feminino na atualidade.
É fato que a trilogia aponta a necessidade de uma submissão, não da mulher, mas do feminino. Poder tornar-se mulher é o grande desafio que encontro diariamente em meu consultório. O princípio feminino está intimamente ligado ao princípio masculino, a mudança de um aspecto reflete nas duas funções. Mas, que tornar-se mulher é esse? É sair do lugar de dureza e intransigência, é se permitir receber gentilezas, é possibilitar sair do lugar de comando sem sentir-se diminuída e menosprezada. É permitir dar espaço a paciência. Não sentir a necessidade de competir e saber que a vida é para ser vivida. Mas, onde se encaixa a proteção? É importante questionarmos essa necessidade, a mulher precisa ser protegida do que? Não podemos entrar em questões concretas da realidade atual, mas, podemos entender que a proteção pode ser dela mesma, da necessidade de se ter o poder, de trazê-lo para o relacionamento e com isso impossibilitar a união. O poder faz com que haja a necessidade de que o outro precise de você. A verdadeira relação te dá a possibilidade de escolha, ou seja, você pode querer estar com o parceiro.
A dominação e submissão sexual de forma imposta e desrespeitosa não segue adiante no romance, Anastasia se recusa a prosseguir e sai do contrato para posteriormente dar início a um outro tipo de relacionamento. A sua volta possibilita ao Cristian questionar-se e permitir-se entrar em contato com o outro, algo que não viveu durante toda sua vida. Mistério que é desvendado ao longo da história. Anastasia que num primeiro momento parece uma moça tola e influenciável, se torna uma mulher que traz a possibilidade da construção do casal. Ela é a saga de milhares de mulheres.
Fazer a crítica simplesmente por estar diante de um best seller é, a meu ver, criticar sem compreender o por quê se tornou sucesso de vendas. É a impossibilidade de aproximação do outro. É colocar uma barreira entre o poder e a dominação intelectual e a submissão do entusiasmo da massa, considerada por muitos “inteligentes”, incapazes de ter uma visão crítica. Ok, nem tudo está na consciência. Nossas mudanças partem de um processo inconsciente. Se está atraindo tantas mulheres, temos que compreender que, em algum lugar algo está sendo mexido.
A primeira mudança se dá no concreto e os 50 tons tem sido para muitas delas esse primeiro passo. Olhar para si e questionar seu relacionamento baseado em um romance idealizado e realizar mudanças é no mínimo uma tentativa de desenvolvimento.  Longe de ser desconsiderado, temos que olhar o motivo de tanto entusiasmo. Isso é um alerta. Que venham as mudanças pelo 50 tons, pois, podem a partir daí, surgir a necessidade de uma mudança mais profunda e verdadeira. Não esqueçamos que os primeiros passos no caminho do desenvolvimento acontecem em um plano concreto para posteriormente surgir a possibilidade de caminhar para uma mudança profunda e inteira.
O cuidado que deve ser tomado é não mudar o discurso social “homem se pega pela boca” para “homem se pega pela cama”. Essa mudança da narrativa não traz um novo lugar da mulher na sociedade. Homens não devem ser pegos e nem mulheres devem virar caçadoras. As relações precisam ser construídas através uma conquista verdadeira, onde se aceita e é aceito pelo outro de forma inteira e respeitosa. 

Sobre o amor

Sobre o amor. O que significa amar? Que sentimento é esse que para muitas pessoas é o combustível da vida? 
Escrever sobre o amor é algo muito delicado. Esse sentimento  tem peso, significado e importância completamente diferente em diversas culturas. Na cultura ocidental o amor é essencial, é ar, é o pensamento e para muitos, o grande objetivo da vida. Mas, de qual amor falarei? Aqui, discorrerei sobre o amor romântico e o amor na atualidade baseada no livro de Regina Navarro Lins “O livro do amor”.
Para dar início a esse tema delicado, diferencio o amor romântico do amor atual. O romântico é aquele que imagina, idealiza a vida de duas pessoas como sendo uma só. Há uma fusão onde a individualidade é deixada em segundo plano, visto que,  o objetivo dos amantes passa a ser a felicidade única e integrada. Hoje essa ideia do amor romântico está caminhando para uma substituição, onde o amor primeiro é por si e traz o outro para dentro desse mundo sem perder a individualidade. Individualidade é um conceito fundamental na atualidade. 
Pode-se pensar que no séxulo XX  era esperado que o amor fosse vivenciado de maneira intensa, idealizada, romantizada, endeusada, enfim, repleta de projeções humanas. Sendo isso, há uma impossibilidade de permanência na relação pois o parceiro idealizado torna-se real. 
Hoje há necessidade de pensar o amor a partir da ideia de que primeiro deve amar a si mesmo e com isso as expectativas com relação ao parceiro mudam, não sei se são completamente diferentes do amor idealizado mas, o objetivo é ter o outro como parceiro e não como aquilo que desejo. Também não acredito que seja possível, pois as projeções são inevitáveis. A questão é que há uma maior consciência para a compreensão do por que escolhemos aquele cônjuge. 
Ainda hoje vejo quantas pessoas duelam internamente entre essas duas formas de amar. De acordo com a autora, é perceber que há uma mudança na exigência de exclusividade que o ideal do amor romântico apresenta mas, discordo que esteja saindo de cena. A exclusividade, para muitos, ainda é algo importante e valorizado dentro da relação. No entanto, é discutível que exclusividade é essa, se é aquela que impede o outro de existir, de ter seu próprio espaço pode caminhar para o fim da união. Mas, se é aquele amor que pede exclusividade dentro da intimidade, a necessidade desse ingrediente passa a ser fundamental na relação. O que é exclusivo pode ser visto como algo só meu, mas dentro da relação o exclusivo poder ser aquilo que é só nosso.  
 
Devemos considerar que na sociedade ocidental atual ainda se vende a imagem do amor perfeito. Não sei se caminha para o fim, talvez para a fusão do romântico e do individual. 
Termino o texto desse mês com mais um parágrafo do livro, que ao meu ver, sintetiza o significado ocidental do amor.
“O amor é uma convergência de muitos desejos, alguns deles sexuais, outros éticos, muitos diretamente práticos, outros pouco românticos e fantásticos. No amor não queremos só sexo e segurança, mas também felicidade, companhia, diversão, alguém para  viajar, sair, ouvir conselhos, ter orgulho desse alguém, enfim, uma associação com quem é uma vantagem social e um aliado, alguém com quem vamos dividir o trabalho doméstico e aumentar a renda da casa, alguém de quem podemos depender na hora dos problemas e nos consolar nos momentos de tristeza, e por aí vai.”