Nada de nhe nhe nhe: sente aqui meu filho, e vamos conversar sobre feminicídio.

Quero começar o texto pedindo sinceras desculpas por tamanha ausência. Sei que muitas pessoas seguem meu blog e devem ter estranhado tanto tempo sem um texto. Nos últimos meses a vida pesou por aqui. Tenho tentado respeitar os meus limites mas nem sempre isso é possível, não é?  Resolvi escrever sobre um tema que não gostaria que fosse tão recorrente: o feminicídio. 
Quantas mulheres morreram nesse último mês no Brasil vítimas de homens filhos de uma cultura machista? Tenho um filho, olho para ele e penso: como estarão as mães desses homens brutais? Assassinos? Como seria olhar para um filho, que aparentemente era uma pessoa dentro do espectro de normalidade, e que da noite para o dia passou a ser um  assassino? Esses homens, filhos de uma cultura extremamente machista, se portam perante o mundo como maiores do que o próximo. Não consigo imaginar que homens assim se sintam somente superiores às mulheres: questiono a postura desses homens diante de qualquer outro ser que eles considerem inferior. 
Me dói imaginar relações tão abusivas e dependentes psiquicamente, baseadas numa vã esperança de que tudo melhore e de que no dia seguinte tudo fique bem. Só que não fica. Mulheres são mortas, espancadas, torturadas diariamente, e estamos sempre de mãos atadas. Mas ainda me intriga uma questão: como transformar essa situação? Leis mais severas aos assassinos não resolverão nada no que diz respeito à agressão contra a mulher. 
Queria propor um olhar de base. Como eu disse, eu tenho um filho. Olho para ele todos os dias e penso: o que será que ele pensa das mulheres, ou, no caso, das meninas? Vejo o brilho nos seus olhinhos quando fica a me admirar e ao mesmo tempo, levantar opiniões nessa fase infantil em que os meninos não gostam de meninas e as meninas não gostam de meninos. 
Pausa!!!
Ok!! Isso é uma fase. Mas o que ele me diz sobre não gostar de meninas? 
“Mamãe, eu não gosto de meninas porque elas brincam de coisas chatas”. Ok! 
“Mamãe, eu não gosto de meninas porque elas falam muito de príncipes”. Ok! 
“Mamãe, eu não gosto de meninas porque elas são fracas e cheias de nhe nhe nhe”. Não… isso não é ok! 
Vamos lá meu filho: o que são esses nhe nhe nhes? “Ahhh mamãe elas ficam cheias de bla bla bla”. Percebo imediatamente que ele não sabe explicar o que exatamente é irritante no comportamento das meninas. E logo questiono: e o que elas dizem de vocês, meninos? “Que não gostam da gente porque somos fortes”. É claro que não dizem isso!!! Fico até com vontade de rir. Porém, o assunto é sério: me vejo diante de uma super projeção que, se não for cuidada desde cedo, se tornará uma “verdade absoluta”.
Senta aqui meu filho: as meninas também são fortes, e talvez o que vocês meninos não gostem nelas é o fato de não terem permissão para entrar no mundo delas. O mesmo acontece com as meninas: talvez elas não gostem tanto dos meninos porque não conseguem entrar no mundo deles. Esses mundos estão dentro do que vocês são, mas não porque vocês são meninos ou meninas, mas sim porque vocês mostram o tempo todo uns aos outros as diferenças humanas. Todas as vezes que não for possível adentrar um mundo desconhecido ou não permitido, iremos nos irritar.
Ainda não tive nada dessa conversa com ele, porque ele, ainda muito pequeno, não conseguirá atingir a dimensão do que é ser diferente. Mas, com cuidado, fui dizendo: meu filho, se elas ficam cheias de bla bla bla, saiba que vocês também! Cada grupo tem o seu bla bla bla. Ele arregalou os olhos, e percebi que ali alguma coisa fez sentido.

Não quero que meu filho cresça crendo na ideia de bla bla bla, mi mi mi, chilique, nhe nhe nhe, como sendo “coisa de mulher”. Esses padrões de comportamento são puramente humanos, e enquanto alguns adultos maduros aprendem a lidar com suas birras, outros, infelizmente, matam.

Casamento, Intimidade e Sexualidade

Tenho visto com certa frequência muitos casais reclamarem de sua vida sexual no casamento. O que antes era queixa dos homens, hoje tem ficado mais evidente a ausência deles na cama e a presença de mulheres insatisfeitas. Casais cansados, sem disposição e com outras prioridades, permitiram que o mistério da sedução perdessem o seu lugar. Que intimidade conquistada foi essa que trouxe ao casal desânimo sexual? 

Escuto de muitos casais questões como: “Isso é normal não é? Depois de algum tempo junto o sexo tende a ficar monótono e escasso”; “Eu sei que o sexo muda, mas, porque ele não consegue mais me olhar com desejo?” Esse tipo de insatisfação sempre aconteceu? Pensar sobre a sexualidade e buscar uma melhora tem ficado cada vez mais frequente. Não é mais uma insatisfação só do homem, as mulheres tem reclamado cada vez mais da ausência de seus maridos. No entanto, muitas delas voltam toda a culpa para si e reflexões sobre não ser mais atraente, estar acima do peso, flácida, ficam cada vez mais constantes. O problema é que novamente a mulher passa a ser responsável pelo prazer do homem, nesse caso a falta de estímulo é culpa exclusivamente dela. Peso desnecessário e cada vez mais frequente. 

O relacionamento há muito tempo tem lutado para conseguir seu espaço íntimo, com a intimidade que traz cumplicidade, apoio, diálogo. No entanto, juntamente com a amizade e proximidade os casais se afastaram na cama. A sexualidade está cada vez mais escassa, o leito que no início do casamento era o lugar mais frequentado hoje está populoso, com filhos, preocupações, trabalho, estresse e incansáveis diálogos sobre o relacionamento. 

Ao meu ver, o que pode minar o desejo é a ilusória ideia de garantia, não há relacionamento que se garanta simplesmente pelo fato de, eu acho que o outro merece ser feliz e a felicidade dele sou eu. A intimidade traz a ideia de pertencimento, não existe perigo de se perder, o outro é meu, o que mostra o caráter possessivo da relação. Essa intimidade mata o desejo pois não há perigo da perda, no entanto, quando o perigo se torna iminente o desejo volta à tona. A partir do momento em que a ideia de pertencimento desocupa o lugar, o relacionamento adquire uma nova cara, a intimidade passa a ter outro significado, sou íntima, ele me conhece, mas, não conhece tudo. Eu posso manter o meu espaço e esse espaço é suficiente para fazer com que o outro me queira por perto. A ilusão de conhecer o outro plenamente afasta a necessidade de exploração e impossibilita a mudança. Tal impossibilidade gera angústia e pensamentos como: “Se eu mudar posso perder o meu companheiro (a), eu posso não ser aceito (a)”. Esse aprisionamento acontece justamente porque criou-se a necessidade de um relacionamento estático, aí, fica a questão: como uma relação estática pode gerar uma sexualidade atraente?

Anteriormente o homem se via como o único receptor do prazer e a mulher tinha que cumprir com o seu papel de esposa. Hoje, o homem se percebe como agente do prazer, o que me faz pensar que a partir dessa mudança pode ter ocorrido uma autocobrança onde ele precisa mostrar para si e para o outro o seu desempenho.

Penso que, não podemos mais olhar como sendo uma questão do homem ou da mulher, mas sim do casal. Ninguém tem que se sacrificar pelo outro mas sim pela relação. A relação exige, o casamento e o amor precisam acontecer para que a união se mantenha em pilares fortes e saudáveis. 

Termino o texto com uma belíssima frase de Joseph Campbell:  “O amor em si é dor, você poderia dizer, a dor de estar verdadeiramente vivo”.

Esse texto é uma pequena parte do artigo apresentado no XX Congresso Internacional da Associação Junguiana do Brasil que aconteceu em junho de 2012. “Amor sem sexo é amizade? Aumento da intimidade com a perda da sexualidade é um destino do casamento?”

O Pai que não mora em mim

No XIX Congresso da Associação Junguiana do Brasil, que aconteceu em Gramado, onde fui apresentar um trabalho, tive o prazer de assistir a palestra do Dr.Roberto Lehmkuhl entitulada “Um mundo sem pai” que me fez refletir e ter uma vontade grande de falar sobre o Arquétipo Paterno. Para isso, vou me basear no artigo do Dr. Roberto, disponível no site da http://www.ijrs.org.br/artigos.php?id=125 .

Para dar início a esse texto, coloco um trecho do artigo de Lehmkuhl, que diz: “A marca da experiência sob a batuta do pai é a tensão e a diferença de potencial. Se por um lado presentifica a dor, o desconforto e o conflito, por outro gera energia e vitaliza ao fazê-lo.O que a mãe provê é o preenchimento; o pai, a falta, o sentimento da falta, mas também a tecnologia e os recursos para o preenchimento. A mãe saciava a fome, o pai instrumenta o filho para, por conta própria, experienciar e, com seus próprios recursos, lutar por suprir. A prescrição vem do pai; o comportamento fica por conta do filho; o bom pai não dá o peixe, mas informa e ensina sobre técnica da pescaria”.

Essa citação me fez refletir sobre a situação atual de muitos homens e mulheres que encontro em meu consultório. Quantos não conseguem se relacionar com o mundo pois lhe faltam o masculino? O masculino no sentido da luta, do ir, do ter disposição para a vida. Muitas pessoas encontram-se paralisadas, faltam-lhe o pai. O bom pai, como diz o autor, o pai que ensina a pescar, que orienta e que empurra para a vida. Tenho me deparado, principalmente com homens, que se perderam quanto ao que devem fazer. Como devem agir, e caem nos vícios para sentirem-se mais seguros de si, como se fosse no concreto buscar o pai bom, o masculino que ensina, que dá coragem e mostra o caminho. 

Situações onde a busca do prazer é algo compulsivo é uma representação forte da ausência do pai, um exemplo, são os vícios. O vício relacionado a bebidas, drogas ilícitas, a  sexualidade que, para muitas pessoas são supervalorizada e por outras tantas é visto como algo a ser temido. Pessoas que não conseguem desenvolver-se no trabalho, em atividades produtivas e criativas. O pai em nossa sociedade é função importantíssima para o desenvolvimento psíquico de qualquer pessoa. A ausência de um pai bom pode gerar indivíduos frágeis, inseguros, rígidos e sem limites. 

Como diz o autor: “Será que alguém sabe quem é seu pai? Esta mesma pergunta é feita todos os dias por homens e mulheres que não encontram sentimentos de proteção, autoridade, confiança, sabedoria e senso prático para viver suas vidas”.
Quantos não vivem na insegurança e na falta de confiança em sua jornada da vida? Como coloca Moore na citação de Roberto Lehmkuhl, “Ás vezes, precisamos sentir-nos ausentes e vazios para evocarmos o pai”.
A falta pode ser uma mola propulsora para evocarmos o pai. O que isso quer dizer? Muitas vezes é no sofrimento que conseguimos perceber a força que existe em nós e com isso seguir com determinação, coragem e auto-confiança para os desafios da vida, sem a necessidade de deslocar para qualquer vício a força do pai bom, do masculino. 

Mulher contemporânea

Hoje em dia encontramos casais que entram no dilema atual de independência. A crença da possibilidade de independência cai a partir do momento que percebemos o quanto dependentes somos. Se tudo está interligado, se vivemos numa sociedade onde temos pessoas que trabalham para manter a ordem, precisamos umas das outras. Como viveríamos sem os governantes, empresários, garis, lixeiros, médicos? O conflito acontece no âmbito da ilusória independência.
Alguns homens encontram-se perdidos por não saberem lidar com as mulheres atuais. Mulheres que trabalham, que casam ou não, escolhem serem mães sem nem sequer precisar de um marido. Homens que olham para a mulher como uma competidora e acreditam que precisam preservar a liberdade da sua vida financeira e pessoal. Quantas mulheres ouvimos reclamar das noitadas do namorado, marido? Quantos homens ouvimos reclamar da dureza e da possessividade? Tudo parece tão fora do lugar e onde está o problema? Quantas mulheres correm e se esgotam por terem a crença de que precisam dar conta de tudo? Quantas se escondem atrás de uma fortaleza? Dessa forma a fragilidade não pode mais fazer parte do universo feminino. Aparece então a queixa da falta de compreensão e companheirismo do parceiro. Onde está aquele homem que protegia?
A partir do momento que a mulher não dá espaço para o homem aparecer ele falhará, pois entrarão ambos em uma competição. A mulher agirá como independente e o homem naturalmente de forma omissa, o que em muitas vezes é alvo de reclamação de muitas mulheres. E no instante em que o homem não permite a fragilidade da companheira, ele passa a cobrar uma mulher perfeita não só nas atitudes como também fisicamente, além de ter que se manter forte diante das diversas situações.
Muito se perde na relação quando a mulher se deixa levar pela intransigência e por uma falsa ideia de ser dona de si mesma. Falsa porque está ligada ao concreto. A conexão com a essência, com a alma, se perde a partir do momento que precisa crer na capacidade de dar conta de tudo e todos. O homem passa agir com distanciamento, esquecendo da função da proteção. Enquanto a mulher acolhe, o homem assegura. Se os papéis se perdem, tudo se perde.
E nas relações homoafetivas, não é diferente. Sempre haverá aquele que atua na sua função feminina que acolhe, que cuida, e o outro na função masculina, que protege e assegura. Psiquicamente temos em todas as relações as funções atuantes, a feminina e a masculina.
É importante que nas diversas situações as pessoas aprendam a respeitar seus limites, a perceber suas qualidades, suas capacidades, potencialidades, seus defeitos; aprendam a esperar menos do outro e a estar na relação mais próxima da sua forma de ser. Que faça pelo parceiro aquilo que não só agrade ao outro, mas também a si mesmo. Que aprendam a conviver com as diferenças sem tem que mudar aquilo que para o outro é essência. O relacionamento deve se basear na conjugalidade, não naquela que limita a liberdade, mas sim naquela que entra na comunhão do casal.