Como sou Medíocre!

Essa semana assisti ao filme “Hannah Arendt”, li o livro “O estrangeiro” de Albert Camus, semana passada alguns vídeos do Ariano Suassuna e fiquei com a sensação de que vivemos em uma mediocridade gigantesca. Nos reinventamos e cremos que estamos sendo individuais, mudamos de ideias e opiniões e ficamos convictos de que algo novo surgiu. Seria mesmo possível não estar massificado? Vejam que comecei o texto dando exemplos que posso não ser tão medíocre assim: que horror! Não vou apagar a minha mediocridade, ela está aí e tem sido minha convidada. 

Qual o tamanho da nossa cegueira? O que nos faz insistir olhar para as mesmas coisas exatamente do mesmo jeito? Porque tudo tem caído na normalidade? Que passividade é essa e com o que estamos sendo coniventes? Quais as decisões que tomamos e realmente acreditamos que não fazemos escolhas? As justificativas andam permeando demais a vida individual e consequentemente a vida coletiva.

O Brasil está caótico, o mundo em estado de alerta e nós, pessoas medíocres, continuamos a viver dia após dia. Pensamos, pensamos, discutimos virtualmente, rompemos relações – maioria virtuais – e levantamos bandeira de autocontrole e autoconhecimento. Procuramos soluções mágicas e temos certeza que não fazemos isso. Acreditamos em sentido de vida mas vivemos ainda na superfície do que nos é imposto como boa vida, social, ecológica, política e de preocupações. 

Somos mandados até no que temos que nos preocupar. O bem e o mal está a todo vapor conduzindo nossa existência. Ora em um pólo, ora em outro, vamos dançando conforme a música e nos iludimos com a sensação de que estamos com as rédeas em nossas mãos. 

Não sei se há muita saída para o que estamos vivendo quando decidimos ficar no meio, no esperado, no desejado, no direita e esquerda, na pouca reflexão. Até nossas reflexões precisam ser questionadas. O que refletimos é efetivamente nosso ou nos foi imposto de maneira sutil para que se torne mais uma preocupação que devemos ter? 

A palavra medíocre diz respeito ao que é mediano, comum. Porque olhamos para isso como algo negativo? Isso me chama atenção demasiada. Porque temos horror de estarmos na média? Que sentimento é esse que nos permeia e nos chama para sair do lugar comum? O que consideramos mediano?  Não será esse o anseio que nos leva de lá para cá? Não será esse o objetivo que nos conduz a grupos fechados de pessoas “aparentemente” fora da média? Quantas pessoas fora da média conhecemos? O que acontecerá se assumirmos nossa mediocridade e sentarmos à mesa com ela, olhar profundamente em seus olhos e questionar: onde está minha saída nisso tudo? 

A vida é isso aí mesmo? Somos todos iguais com discursos e rótulos semelhantes? Impulsos e abatimentos na mesma linha? Pode parecer pessimista demais, mas não ando vendo pessoas indivíduos, vejo pessoas em massa. 

“O que o move, move. O que o agrada, agrada. Seu gosto acertado, é o gosto do mundo” – Lessing apud Hannah Arendt – Homens em tempos sombrios.

Se baixamos a qualidade artística pela massificação, o que dirá o resto em nós? Cada um na sua própria massificação crendo que vive em um mundo de respeito a individualidade. Vivemos aí um individualismo massificado. Estou rindo de desespero até a próxima encarnação e me desconstruindo completamente sem saber onde isso vai parar. 


Atenção! Sinal vermelho. Pare!

Qual grande cidade podemos citar que não ocupe bons momentos do nosso tempo atrás de outros veículos, sentindo o cheiro forte de gás carbônico? Estava em uma dessas filas com uns 10 carros à minha frente e lá bem próximo ao semáforo uma pessoa. Pessoas também fazem parte desse cenário com muitos carros à espera do sinal verde, só que esses esperam pelo sinal vermelho. O sinal vermelho está na vida dessas pessoas o tempo todo. 
Um grupo de carros partiu e foi minha vez de aproximar. Um homem com mais ou menos 1,90m, sem camisa e muito sorridente. Fazia gestos para todos os carros como quem pede uma moeda. Chegou ao meu lado, baixei o vidro e ele parou, baixou as mãos e me disse:
 -Senhora não vou te pedir nada quero só agradecer por ter baixado o vidro, você foi a primeira pessoa que falou comigo hoje. O sinal abriu eu fui, ele ficou. Não! O sinal abriu e eu fiquei. Fiquei com aquele rapaz na minha cabeça por dias, sinceramente, me lembro dele até hoje e meus olhos se enchem de lágrimas. O sinal vermelho está com ele a todo tempo e para tentar explicar ao mundo que só precisa de ajuda arrumou o seu jeito de falar. Naquela altura precisava gesticular cada vez mais para que notassem que não faria mal. Sem camisa corria o risco de aumentar o mal estar. Seu corpo atlético poderia causar mais medo. Mas talvez fosse mais um jeito de dizer: 
– Pessoal estou sem nada. Vejam! Nada! Não tenho nada! Não sou nada! Eu nos meus humildes 1,55m reagi a sua alegria mas ainda assim, aquele espanto em seu rosto ainda está aqui. 
O moço sem camisa, gigante, em sua miséria humana foi a pessoa mais importante que cruzou meu caminho esse ano. Não  quero entrar em longas discussões sobre segurança pública para justificar o isolamento e a segregação. Não vou entrar no mérito dos infindáveis assaltos que nos ameaçam todos os dias. Vou pensar, sentir e agir sobre o assalto que cometemos diariamente quando encontramos essas pessoas bloqueando nossa “PAZSSAGEM”. O que roubamos deles? A vida, a significância, o direito de decidir o que fazer com a moeda que dei. Porque terei que ser eu a dizer para ele que o álcool lhe fará mal? Que pessoa má me torno quando decido que algo para o outro pode ser a primeira escolha para o seu próprio fim? O meu vidro fechado pode ser seu fim. Minha moeda pode ser seu caminho, mas meu bom dia pode ser um alento. Quem vive nessa vida sem alento? Quão mau posso ser quando resolvo assaltar, tirar, roubar do outro sua própria existência? Que direito tenho em dizer para ele que não é nada significante para mim? Como podemos mudar algo quando ainda insistimos em dizer alto e bom som que o mal está ali, do lado de fora do meu carro, do meu ar condicionado? Seria o caminho pensar na fala de Durkheim que diz ser a moral a ciência dos costumes? Não sei! O sinal verde permite a passagem mas talvez seja o momento de parar no sinal vermelho. 

Em 2016 não vamos lutar pelo diferente!

A dor dilacerante de ser diferente, será que nossa maior luta deveria ser para uma ampliação da consciência quanto as diferenças? Não seria necessário percorrer um caminho maior? Será que quando ampliamos a consciência para nossa noção de igualdade não estaríamos mais propícios a aceitar a pluralidade? 
Quando penso na luta pelas diferenças algo me aperta o peito. Estou lutando pelo que? Para que o outro, que é visto como algo estranho, seja aceito? Eu não quero que ninguém seja visto ou classificado como sendo estranho que precisa ser incluído. Não me sinto nem um pouco a vontade em lutar para que o diferente seja aceito ou tolerado. O que desejo é a integração. Integrar em mim que sou igual dentro da pluralidade e integrar socialmente a pluralidade humana. Esse “diferente” classificado socialmente é algo que está submetido ao desejo de muitos em ter alguém abaixo daquilo que eu considero “normal”. Se estabele uma relação de poder. 
Somos tão diferentes assim? Me vejo mais igual do que diferente. As nossas escolhas caminham por estradas, muitas vezes opostas, mas ambos buscam por um caminho. Nossos gostos e ideias são ligeiramente divergentes mas ambos possuem gostos e ideias. Que ideia é essa que estamos nos enfiando? Olhar a pluralidade pela perspectiva da igualdade me soa coerente . Olhar a pluralidade como algo comum ao ser humano me parece mais possível. 
Penso que na base da luta dolorida daqueles que estão nas camadas a serem incluídas, tem algo maior do que ser aceito. Tem uma necessidade de inclusão da normalidade na pluralidade. A palavra diferente no dicionário, sugere algo além das singularidades, tem estranho, esquisito, excêntrico. E quem não é? Aqueles que são contra a naturalização da vida lutam para manter o poder e ter sempre alguém subordinado a que? Essa imagem me remete claramente a manutenção da escravidão. Socialmente precisamos ainda de seres inferiorizados? Será que a luta pela diferença não seria um tiro no pé? Não seria a manutenção do discurso de não aceitação? Essa é minha mensagem de boas vindas ao novo ano. Que em 2016 sejamos mais próximos uns dos outros. Que a proximidade seja de alma e não de discursos de sofá. 

Morrendo em mim: um caminho mais que necessário.

A morte é sempre um tema aterrorizante para muitas pessoas. O medo da morte, do pós morte, de perder alguém, de sentir que a vida não está em nossas mãos. Ver tudo passar rápido e com a mesma velocidade, o pensamento de que algo poderia ter sido diferente. A morte está longe, distante e muito mais próxima da velhice, ledo engano. Morremos todos os dias, todas as horas. Sentimos saudades de algo que já morreu, um momento, um olhar, um abraço. Vivenciamos diariamente o luto e a dor de algo que ficou para trás. Mas por que ainda temos medo de morrer? Por que sentimos medo das mudanças?
O tempo passa muito rápido e quando temos filhos percebemos com uma clareza, nunca antes vista, de como o tempo é ligeiro, deixa marcas, foge do controle e te mostra o quanto você pode viver muito mal. Não falo de viver bem todos os dias na maior intensidade, em ser grato, nada disso. Mesmo porque a dor e o sofrimento podem ser muito eficazes quando o assunto é viver bem. Digo viver bem no sentido da aceitação, de se curvar diante da vida e receber tudo que ela te traz. Viver bem pode simplesmente te custar muito caro, custar as dores de lutas que aparentemente não são suas. Pode te custar dores intensas de cabeça ou até mesmo uma coluna travada. Talvez com todo desconforto você perceba que está vivendo bem. Resolveu que o mundo que está aí fora, todo cheio de achismos e piadas de mal gosto diz muito respeito a você. Que exigir uma voz mais ativa cansa e ao mesmo tempo te traz sentido novo. 
O encontro com o mundo pesado te mostra um pedaço escuro da vereda. Te coloca de volta ao teu próprio caminho e, ao mesmo tempo, você nota que talvez estivesse andando em uma rua iluminada que não era sua. Aquela ali, aquele beco, aquela lanterna velha no chão. Esse sim! Esse sim pode ser o seu trajeto. Nada de seguro, nada confortável e muito menos tão iluminado. Olhar pra sombra é mais do que olhar para aquilo que está fora, olhar pra sombra é se ver nela. É tudo uma coisa só, não precisa ser integrado, basta ser reconhecido, assim como você reconhece seu rosto. Integrar pressupõe algo que esteja fora, que não seja conscientemente seu. Quando entendemos que tudo somos nós, algo muda. 
Ninguém me mostra quem sou, nem mesmo sei quem sou, mas sei que tudo me possui e tudo eu possuo. Sou responsável por cada passo dado, por cada palavra dita e por todas que não foram sequer mencionadas. Sigo meu caminho, morro todos os dias, vivo a morte e a vida como uma só. E como disse Nietzsche: ” Depois que cansei de procurar aprendi a encontrar. Depois que o vento meu opôs resistência, velejo com todos os ventos.”