É possível caminharmos juntos? Individualidade x Conjugalidade na realidade do casamento.

Esse mês trago o tema da individualidade e conjugalidade nas relações de casamento. Será possível manter o individual e construir o conjugal sem afetar a relação? Seria essa uma utopia do casamento?
A teoria proposta por Philippe Caillé, um e um são três, é descrita no artigo de Terezinha Féres-Carneiro “Casamento contemporâneo: o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade”
“Cada casal cria seu modelo único de ser casal, que ele chama de “absoluto do casal”, que define a existência conjugal e determina seus limites. A sua definição de casal  contém portanto os dois parceiros e seu “modelo único”, seu absoluto”. 
Em meu trabalho com terapia casal tenho notado, com certa frequência, o desejo da construção da conjugalidade, no entanto, há certa incompatibilidade na ideia do conjugal. O ceder está incluso, no entanto, este não pode ser o único recurso, já que, pode tornar-se a anulação da individualidade. 
A autonomia individual é fundamental na construção da vida a dois. Ficar somente no um ou no três pode resultar no fracasso da manutenção saudável da relação. A linha é tênue quando se trata em respeitar o individual pois, esta pode ser a munição contra o casamento. Aceitar e apoiar a individualidade é parte integrante para a construção do caminho único, o casamento. 
Ideias como fazer uma caminhada, um curso, uma reunião com os amigos devem ser respeitadas, no entanto, quando um dos parceiros começa a exigir respeito em suas escolhas é o momento de se parar para pensar. Por que estou tendo que pedir respeito? Que respeito é esse que desejo? Estamos construindo uma relação de desejo ou de dependência? Estamos no casamento porque queremos ou porque precisamos? Questões como essas são recorrentes e podem ser um indicador da necessidade de abrir novos olhares e principalmente acordos sobre como devem levar a união. 
A conjugalidade deve ser preservada, assim como a individualidade. São duas pessoas construindo uma vida. A base de qualquer relacionamento deve estar apoiada em comunhões de vidas. É preciso construir um lugar confortável de planos, objetivos onde reforçam o desejo e a escolha pelo casamento. Assim, a individualidade deixa de ser uma ameaça e passa a ser parte integrante e necessária no casamento.
Casar é unir um e um e gerar o três, o casamento. Esse modelo único e verdadeiro acontece quando ambos caminham na mesma direção.

A transgeracionalidade e os impactos na vida conjugal

O relacionamento contemporâneo, diferentemente do amor romântico, carrega a possibilidade de auto-reflexão, diálogos sobre os sentimentos, a maneira de agir, os laços de união e com isso a constituição do indivídual e do conjugal. Nesse artigo, partindo da ideia do novo modelo relacional, tratarei sobre a interferência da transgeracionalidade, ou seja, da herança familiar na construção do casamento. 
Na constituição do indivíduo todo aprendizado consciente e inconsciente se dá primeiramente na família de origem, no entanto, a família traz consigo toda uma herança anterior que interfere direta e indiretamente na formação de cada ser.
A família contemporânea traz uma nova ideia de relacionamento, onde coloca o individual, muitas vezes, acima do conjugal o que pode se tornar um problema em algumas relações. Primeiramente é necessário explicar os impactos transgeracionais na vida do casal para posteriormente falar sobre o dilema individualidade e conjugalidade, o qual será publicado no próximo mês. 
De acordo com Féres-Carneiro, Ponciano e Magalhães em a “Família em Movimento” a elaboração da herança familiar é fundamental para a construção do presente e futuro da relação. 
Casar é trazer toda a herança familiar, é encarnar o modelo de casamento vivenciado pelos pais, tendo o peso positivo ou não. O casamento é um processo constante de negociação, já que a constituição individual se deu por todo aprendizado anterior. Há uma necessidade primeira de acordar quais os modelos herdados que serão mantidos e aqueles que serão transformados, entendendo que a modernidade exige da nova família um repensar sobre modelos e valores anteriores.
No momento em que o casal sai da cegueira da luta por um modelo repetitivo, abrem-se as portas para a construção e organização dessa nova família. Para isso, é importante compreender onde acontece a ligação genuína na relação. Situações como a espiritualidade, o social, os planos e projetos para o futuro, podem ser canais de conexão única. 
Os maiores impasses sofridos devido a herança transgeracional se referem a engessamento de modelos aprendidos, ideias como: a mulher deve ser independente, o homem é o responsável por manter a vida financeira, é importante que haja ajuda masculina na organização da casa, a mulher precisa cuidar de si e do lar, entre outras inúmeras exigências, mostra a manutenção de uma cultura social e familiar que muitas vezes impede novos acordos. A ideia constante de ajuda masculina é um dos maiores obstáculos tanto para o homem como para a mulher, já que, ainda não foi internalizada a noção de igualdade nas responsabilidades da vida a dois. 
Esses exemplos são ilustrações de uma variável enorme de possíveis situações vividas a dois, dificilmente conseguiria abordar a maioria. No entanto, dissociar o que foi aprendido para acordar a maneira de viver a dois é fundamental para prosseguir em uma união mais autêntica. Discursos maternos e paternos são, muitas vezes, determinantes na maneira de agir do indivíduo, o que não cabe em uma relação.

Como disse acima, após a ampliação do olhar sobre o aprendido e a conexão dos cônjuges é mais fácil a ligação e a aceitação do que deverá ser transformado e aquilo que se manterá como herança das famílias de origem. Cada casal, cada história individual e a construção do novo é além de importante, um combustível renovador e de união para o casamento. Essa re-significação da transgeracionalidade além da autonomia conjugal traz a segurança de estar no caminho certo, o caminho de responsabilidade dos dois e não a permanência de modelos individuais que precisam estar em constante luta para mostrar a sua veracidade.  

Enfim, poder escolher quais aspectos herdados serão mantidos e quais serão abandonados é o início da construção de um casamento. Para finalizar, de acordo com as autoras acima:
“A tarefa do sujeito assim como da família e do casal é construir, organizar e transformar suas heranças”.

Somos íntimos?

Intimidade é um assunto que parece, num primeiro momento, algo tranquilo de se definir. Muitas pessoas diriam que ser íntimo é poder chegar em casa e saber o que aconteceu no dia do parceiro, é poder entrar em seu mundo tendo livre acesso, é saber ouvir e saber falar, no entanto, a proximidade muita vezes vira coerção e com isso consequências inevitáveis aparecem sem pedir licença. 
A base de um bom relacionamento, seja ele qual for, é saber que somos diferentes uns dos outros e que isso não nos torna melhor ou pior, mas sim, diversos. Dentro de uma relação é comum que um tenha uma forma de se comunicar diferente do outro o que pode, ou não, gerar ruídos na convivência. Diante disso como funcionará a intimidade do casal? Ela realmente existe ou está na base da intimidação e coerção?
Exigir do outro de forma sutil e delicada que lhe conte tudo, comparar a forma de agir com a do parceiro faz com que as diferenças tornem-se obstáculos intransponíveis. As diferenças podem ser assimiladas na relação de forma que o valor do outro se sobressaia e para isso é preciso mudar o jeito de olhar para si e para a pessoa amada. 
A intimidade é muitas vezes confundida, e o que se vê é a necessidade de controlar a vida do parceiro. 
– “Você tem que me ouvir.”
– “Não vai dizer que me ama?”
– “Eu te conto tudo.”
São possíveis evidências de coerção, invasão e necessidade de reciprocidade onde a proximidade deveria ser natural na relação de um casal. 
A terapeuta de casal Esther Perel retrata muito bem essa intimidade disfarçada em controle:
“Quando o impulso de compartilhar vira obrigatório, quando os limites pessoais já não são mais respeitados, quando só se conhece o espaço compartilhado com o companheiro, e o espaço privado é negado, a fusão substitui a intimidade e a posse coopta o amor. É o beijo da morte para o sexo. Destituída de enigma, a intimidade torna-se cruel quando exclui qualquer possibilidade de descoberta. Onde nada resta a esconder, nada resta a procurar”.
A imposição mostra que o terceiro lugar, o casamento, não existe nessa união. Eu sou assim, você é de outra forma, e em cada momento um cede é o maior equívoco de que a relação está em bom funcionamento.
A necessidade de se ter o controle da vida do outro tendo como base a falsa ideia de interesse e intimidade, mata a possibilidade de existência do individual e assim consequentemente é o meu olhar sobre o meu parceiro que faz dele aquilo que eu vejo e exijo que ele seja. Como haverá amor, desejo em algo que se tem pleno domínio? Não há desejo e intimidade quando se mata a possibilidade do outro existir como um ser em constante mudança. 
Enfim, ter a certeza do outro é ter em mãos o atestado de óbito da relação.

Dores do amor!!

“Só se poderia pensar em amor livre se todas as pessoas realizassem elevados feitos morais. Mas a ideia do amor livre não foi inventada com esse objetivo, e sim para deixar algo difícil parecer fácil. Ao amor pertencem a profundidade e a fidelidade do sentimento, sem os quais o amor não é amor, mas somente humor. O amor verdadeiro sempre visa ligações duradoras, responsáveis. Ele só precisa da liberdade para escolha, não para sua implementação. Todo amor verdadeiro profundo é um sacrifício. Sacrificamos nossas possibilidades, ou melhor, a ilusão das nossas possibilidades. Quando não há esse sacrifício, nossas ilusões impedirão o surgimento do sentimento profundo e responsável, mas com isso também somos privados da possibilidade da experiência do amor verdadeiro”.
O amor é um tema muito falado e pouco vivido. O amor é confundido o tempo todo com posse e dependência. Quando Jung fala que o amor precisa de liberdade para escolha, penso que o amor para ser vivido precisa ser um desejo e não uma necessidade. Estou nessa relação porque gosto, porque quero e não porque preciso. Estou porque o escolhi.
O que faz uma pessoa precisar estar na companhia do outro para, de fato, sentir-se amada? Seria esse o sentimento sincero de uma relação? Não seria a baixa auto-estima o combustível do ser dependente? Poder amar a si mesmo é permitir-se admirar-se e o admirável é notado, por si e pelo outro. A partir daí basta o outro reconhecer-te como um ser desejável em sua plenitude humana, cheia de falhas, cheia de defeitos e imensamente coberta pela qualidade do amor a si mesma e do amor ao próximo. O sacrifício não significa apenas renunciar algo em prol do outro, mas acima disso, é um sacrifício quando pensamos na origem dessa palavra vinda do latim sacrum facere, uma oferta ao sagrado. Sacrificar algo em si não precisa ser visto de maneira negativa, já que, o sacrifício é em prol de algo superior, nesse caso, o amor. 
Amar o outro como a si mesmo não é um mandamento que colocaria o escolhido acima de ti, mas sim igual na importância e no merecimento desse sentimento. Amar o outro mais do que a si mesmo é amor ou posse? É amor ou necessidade? É amor ou dependência? 
Segundo Jung “O amor é como Deus: ambos só se oferecem a seus serviçais mais corajosos”.
Amar não é fácil quando exige de você que ame o outro como a si mesmo, já que amar-se tem sido, talvez, o amor mais difícil de conquistar. Consequentemente não há possibilidade do amor ao próximo, ou seja, não há possibilidade do amor em uma relação quando o olhar sobre si é tão frágil e apagado. 
Eros, é amor em sua essência, Eros é relacionamento e para finalizar esse texto, trago uma frase belíssima do sábio Jung:
“Raramente, ou melhor, nunca um casamento evolui a um relacionamento individual de forma serena e sem crises. Não há conscientização sem dores”