Despertar: uma relação diária

É hora do despertar. Ciclos são momentos de renascimento, de esperança, de recomeços.

O despertar é uma condição diária enquanto há vida. A esperança é o bálsamos na caminhada. O renascer é a chance de fazermos diferente. O recomeçar é a nossa nova chance, é compreendermos o sentido de cada passo, é nos aprofundarmos nas nossas percepções mais verdadeiras e genuínas.

Quando estamos atentos ao mundo e a nós, o despertar assume um outro sentido na vida. Despertar para si mesmo é encontrar uma nova via de acesso as reais necessidades. Do que realmente precisamos? Isso é tão fácil de perceber e tão difícil de assumir que vamos nos embrenhando em vias obscuras, trilhas desconhecidas, mas que nos prometem satisfação e felicidade. A questão é: do que eu realmente preciso?

Quando temos a ideia do despertar como uma nova chance, podemos olhar para o dia que se inicia através dos deveres e das necessidades genuínas. Logicamente os deveres são os deveres e eles fazem parte da rotina, o ponto é o lugar que damos ou não aquilo que é genuinamente necessário como alimento da alma.

Está aí um outro ponto obscuro, necessidade da alma. É como se a nossa alma andasse com passos de crianças e as nossas necessidades fossem os passos de jovens maratonistas. Queremos que a alma nos acompanhe e vamos criando ideias de diálogos com ela, mas na verdade ela ficou muito para trás. Ela não irá te alcançar e nem sequer te ouvir enquanto você está maratonando na vida.

Como pais, nós não vamos correndo na frente e deixamos nossos filhos para trás na esperança de que eles cheguem bem em casa, com tranquilidade e segurança. A gente anda junto. Você pode até pegá-lo no colo para dar uma acelerada, mas ele está junto e determina um outro tempo no mundo. A nossa relação com a alma exige outro ritmo.

O despertar é o momento de escolher com qual velocidade começaremos o dia.

Iniciamos mais um ano e desejo que o despertar seja uma constante na jornada da vida, que seja o nosso guia, a nossa intuição, a nossa bússola.

Que 2021 seja um ano de conscientização coletiva, que possamos vibrar pelas conquistas do todo, que possamos lutar e fazer algo diferente para além de nós.

Solidão Necessária

“Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar, que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo” – Clarice Lispector
O ser humano é relacional, o ser humano precisa de laços, vínculos. O ser humano precisa da solidão mas, tememos e rejeitamos a todo momento essa possibilidade. A solidão é triste, é sinônimo de fracasso, de abandono, de rejeição. O ser humano não foi feito para ficar sozinho, o ser humano precisa ter alguém quando chegar em casa. Tudo isso foi sendo construído ao longo da nossa história, o que não quer dizer que não precisamos uns dos outros. Mas, da mesma forma que temos essa necessidade, também temos a de ficarmos a sós. 
Um dia conheci uma mulher, uma senhora com um bom casamento, bom relacionamento familiar, uma pessoa realizada e ela me disse: “Eu amo ficar sozinha. Adoro quando meus filhos estão na universidade e meu marido viaja a trabalho. Nesses momentos eu não faço nada, faço só o que eu quero. Se quiser andar de pijama e ficar sentada o dia inteiro, eu fico. Esse é o meu momento de prazer”. 
Quando escutamos uma fala dessas logo afirmamos que a senhora não tem uma boa relação familiar afinal, quando se tem uma boa relação familiar a gente não quer se ver longe de quem ama. A companhia se torna indispensável e acima de tudo necessária. Percebem como logo vinculamos a solidão com a impossibilidade de um estado de felicidade? 
Pois bem, assim como precisamos nos alimentar, nos relacionar, precisamos de momentos de solidão. A solidão necessária nos apresenta, nos coloca diante das nossas vozes, dos nossos olhares, da nossa companhia. A solidão é a ausência do olhar do outro que comunica algo sobre mim. Essa comunicação na relação sempre me apresenta algo, vindo de um lugar que não é meu. Por isso que vimos sempre casais muito experts no outro e pouco conhecedores de si. A solidão nos apresenta as nossas vozes, medos, angustias, criatividade, paz, tranquilidade, silêncio, calmaria. Ela nos presenteia com um momento único em nossa própria companhia. 
Quando nos permitimos a solidão, entregamos a possibilidade de nos desenvolvermos como seres humanos mais compassivos, mais generosos, menos juízes. Nós entramos em contato com a delícia e o desprazer de sermos quem somos. A solidão necessária é saudável, é preventiva, é reforço de saúde mental. Façamos essa imagem: Todos nós temos um filtro de pano, como aquele de café. Nosso filtro recebe água quente e pó, esse é o momento das relações, enquanto isso vamos coando, coando, alguns mais lentamente, outros de forma mais acelerada. Mas, em algum momento precisamos lavar o nosso filtro, não conseguimos lavar enquanto alguém derrama água e pó de café. Se não tivermos tempo, nossos furinhos vão entupindo e de repente você nem sequer percebe que o seu filtro já não carrega mais nada seu. Para um café bom, o filtro precisa estar devidamente preparado. A solidão é o momento de lavar, de esperar secar e de poder escolher qual pó de café e qual água vão ter o prazer de entrar em contato com você. 

Tensão entre o ser e o não ser.

Ultimamente tenho me deparado com muitas falas orientando para que sejamos nós mesmos.
“Seja você mesmo!” Vocês já ouviram isso? Em uma dessas vezes eu passei o dia pensando, como seria ser eu mesma? Será que eu já não era? Será que essas pessoas que, com tanta força, dizem “seja você mesma”antes não eram? O que será que acham que estão sendo e que antes não eram? Isso me pareceu um pouco abstrato, me digam por favor, o que vocês acham? Isso tem me parecido um pouco peculiar. Não quero dizer raso, superficial porque isso é desqualificar o ser você mesmo de alguém que eu não conheço e não sei se realmente é. O que eu queria propor aqui é o seguinte, vamos pensar juntos? 
Abri os comentários, nem sei porque não estavam abertos. Estou sentindo vontade de ter vocês um pouco mais perto. Me escrevam!!! Preciso entender esse seja você mesmo! Vou falar um pouco do que eu penso sobre isso. 
Recomeçando. Seja você mesmo! O que será que as pessoas acham que estão sendo e que não eram antes? Às vezes tenho a impressão de que ninguém consegue “ser a si mesmo” porque estamos em processo de transformação constante, e a cada transformação eu poderia concluir que eu não estava sendo “eu mesma” que agora,  na nova descoberta, sou finalmente “eu mesma”. Mas até quando vai durar esse “eu mesma”? Até a próxima transformação? E aí, quando eu me transformar e me tornar a minha “nova eu mesma”, o que acontece com a “eu mesma de antes?” Que coisa mais estranha, vocês não acham? 
Começo a achar que não somos nós mesmos em nenhum momento. Somos tentativas de ser alguém em um lugar que esperam que sejamos alguém. Sendo assim, o que o mundo deseja que eu me torne não sou eu mesma, correto? Isso seria um estado que me ludibria dizendo que o que estou sendo, sou eu mesma. 
Curioso isso!!! Às vezes tenho a sensação que ser você mesmo é quase que fazer o que bem entender. Mas poxa, antes você fazia o que bem entendia mesmo que isso fosse fazer o que o outro esperava. Será que isso é tão sombrio assim? Sinceramente, acho que não! Acho que é só mais uma forma de não se responsabilizar por escolhas, afinal, não se perceber em nada na relação com o outro é possível? Nós sempre temos uma ideia sobre o que somos nas relações. Se são ideias equivocadas ou não, são outros quinhentos. Bom, mas o que importa agora é que eu sou eu, não é?
Desculpe!!! Acho que ainda não!! Esse sou eu gritado aos quatro ventos não é uma processo interino, é um “sou eu’ que precisa dizer que encontrou a si mesmo. Que desolação sinto agora. Parece que tudo está ao avesso e estamos nos acostumando com isso. Nos acostumando com a ideia de que podemos ser nós mesmo, simplesmente porque nos revoltamos. A revolta é só mais um ladinho do que somos e não o todo que somos. Amanhã seremos outro. 
Acho que precisamos não sermos mais nós mesmos e ponto final. Precisamos de movimento. Estou sendo alguma coisa em mim hoje, amanhã serei outra coisa em mim. 
E para finalizar eu extrai do livro “O mundo de Sofia” um conceito de Hegel sobre o ser e o não ser.
“Se eu abordar o conceito de “ser”, não tenho como evitar a abordagem do conceito oposto, isto é, o “não ser”. Não se pode refletir sobre a existência sem considerar que, no instante seguinte, pode-se deixar de existir. A tensão entre o “ser”e o “não ser” é solucionado pelo conceito de “transição”. Para que algo exista, é necessário que transite a um só tempo entre o ser o não ser. “

Uma Macabéa em nós!

Reli “A hora da estrela” de Clarice Lispector. Macabéa, uma mulher que vive uma vida em sobrevida. Aquela mulher que veio da aridez da vida para encontrar a aridez de uma sobrevida. Por que trazer uma literatura clássica para cá? Talvez porque não tenhamos nenhuma consciência do nosso estado “Macabéa”. Penso que Macabéa deveria se tornar um verbo. Estou macabeando, sem consciência, sem sentido, sem vida, sem nada.

Onde encontramos uma Macabéa? Talvez eu nunca tenha notado esse estado sem antes ter me deparado com a aridez de uma vida sendo estrangeira. Num primeiro momento relacionei esse sentimento árido à língua e a cultura tão diferente. Logo depois percebi, somos todos estrangeiros na nossa própria vida. Seria difícil acessar o nosso estado Macabéa? Aquele estado inconsciente que nos leva de volta para um inteiro não saber? Quase um estado intrauterino. 
Macabéa nada sabia da vida, nem da sua própria vida. Macabéa não tinha existência e a angústia extrema não está nela, está no que ela nos provoca. Está na vida que nos leva a sentir, retratando algo que em nós não conseguimos assumir. Criamos ideias tão fixas de auto conhecimento que não suportamos o nosso lado mais sombrio que é o estado que nada sabe de si. Macabéa nada sabia e tudo bem. Talvez o estar tudo bem pelo estado de inconsciência tenha permitido Macabéa ser livre. Livre do que? Não vou me atrever a responder afinal, quero que a Macabéa em mim possa estar presente aqui.
Talvez vocês sintam esse texto como algo assim: “Camila, nada entendi. Nada me acrescentou. Nada do que disse me fez refletir. Ou melhor, esse seu texto está uma porcaria”. Tem razão, talvez tivesse sido melhor apagar tudo e nada disso deixar existir. Mas Macabéa, em seu último suspiro de vida foi alimentada pela esperança. E essa esperança quero deixar existir. 
Não é aquela esperança que conhecemos, porque essa é a vã ideia de termos um desejo realizado. A esperança de Macabéa era a entrada na vida. E é assim que quero terminar. Onde está nossa esperança que nos colocará realmente na vida?
“… E é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial”