Tempo: uma relação dúbia

É tempo de parar, mas não é porque nos aproximamos da virada do ano. Esse ano todo foi o tempo de parar.

A nossa relação com o tempo foi se tornando adoecida, falo do tornar-se adoecido porque falo de um lugar de quem vivenciou dois ou três tempos diferentes. Não é que estou olhando o passado com nostalgia, mas o tempo era sentido e presente em nossas vidas por outro estado. Talvez o estado do tempo anterior tenha sido um estado mais presente. A aceleração tecnológica trouxe muitas coisas boas, nos aproximou ao mesmo tempo que rompeu fronteiras. No entanto, a questão que fica é: por que aceleramos nossa relação com o tempo? Não sei se tenho respostas para isso, mas tenho alguns pontos para refletirmos quais atitudes em nós acelera o tempo.

Acho que é unanime a sensação de que o tempo passa em uma velocidade atroz e que não temos tempo para nada. É verdade. Não temos tempo porque o tempo nos tem. Vivemos em função de tantas coisas para não perdermos tempo, mas perdemos. Perdemos o tempo de uma forma tão brutal que ele se esvai por entre os dedos e de repente, o tempo se foi. Não foi assim em todos os anos? Criamos infinitas listas e metas para o próximo ano com a vã ideia de que vamos aproveitar melhor o nosso tempo. Mas não! Criamos listas infinitas para nos perdermos no tempo. No nosso tempo.

Quando foi o momento inicial que passamos a acreditar que essas listas nos ensinam a viver no tempo? Não, definitivamente não! As listas nos afastam de nós mesmos. É a nossa forma mais doce de nos ludibriarmos. Doce porque nos traz esperança, amarga porque nos mostra a realidade.

Aqui na Alemanha eu aprendi a me relacionar com o tempo de uma forma que nunca havia vivido antes. Essa perspectiva é extremamente angustiante. Primeiramente eu pensei que era resultado do amadurecimento, depois fui percebendo e concretizando a noção de que não, a relação com o tempo se deu com o impedimento da produção. A Alemanha tem muitas questões das quais eu não me identifico, mas a relação com o tempo é algo que me encantou. Talvez seja até porque aqui as estações do ano são tão marcadas que temos a sensação do tempo por uma perspectiva completamente nova. A marca da natureza pondera a ação e a produção. Isso é belo, é tranquilizante.

Passamos um ano atípico e surpreendentemente o convite para tempo de espera virou desperdício de tempo. Isso me chamou atenção para uma histeria coletiva disfarçada de produção. Que necessidade é essa de manter um ritmo tão acelerado? A relação com o tempo da vida está no viver e não na expectativa da morte. O viver é gradual e a perda do tempo também é. A partir do momento que escolhemos viver um tempo acelerado, escolhemos estar na sobrevivência mascarada de vivência.

Eu quero terminar esse ano convidando vocês a pensarem no tempo. No tempo vivido e no tempo desperdiçado. No tempo de hoje. No tempo da vida. Pensem, reflitam o que a falta de tempo conta sobre a forma que você está na sua própria vida. Que venha o hoje, que venha o amanhã.

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