Uma Macabéa em nós!

Reli “A hora da estrela” de Clarice Lispector. Macabéa, uma mulher que vive uma vida em sobrevida. Aquela mulher que veio da aridez da vida para encontrar a aridez de uma sobrevida. Por que trazer uma literatura clássica para cá? Talvez porque não tenhamos nenhuma consciência do nosso estado “Macabéa”. Penso que Macabéa deveria se tornar um verbo. Estou macabeando, sem consciência, sem sentido, sem vida, sem nada.

Onde encontramos uma Macabéa? Talvez eu nunca tenha notado esse estado sem antes ter me deparado com a aridez de uma vida sendo estrangeira. Num primeiro momento relacionei esse sentimento árido à língua e a cultura tão diferente. Logo depois percebi, somos todos estrangeiros na nossa própria vida. Seria difícil acessar o nosso estado Macabéa? Aquele estado inconsciente que nos leva de volta para um inteiro não saber? Quase um estado intrauterino. 
Macabéa nada sabia da vida, nem da sua própria vida. Macabéa não tinha existência e a angústia extrema não está nela, está no que ela nos provoca. Está na vida que nos leva a sentir, retratando algo que em nós não conseguimos assumir. Criamos ideias tão fixas de auto conhecimento que não suportamos o nosso lado mais sombrio que é o estado que nada sabe de si. Macabéa nada sabia e tudo bem. Talvez o estar tudo bem pelo estado de inconsciência tenha permitido Macabéa ser livre. Livre do que? Não vou me atrever a responder afinal, quero que a Macabéa em mim possa estar presente aqui.
Talvez vocês sintam esse texto como algo assim: “Camila, nada entendi. Nada me acrescentou. Nada do que disse me fez refletir. Ou melhor, esse seu texto está uma porcaria”. Tem razão, talvez tivesse sido melhor apagar tudo e nada disso deixar existir. Mas Macabéa, em seu último suspiro de vida foi alimentada pela esperança. E essa esperança quero deixar existir. 
Não é aquela esperança que conhecemos, porque essa é a vã ideia de termos um desejo realizado. A esperança de Macabéa era a entrada na vida. E é assim que quero terminar. Onde está nossa esperança que nos colocará realmente na vida?
“… E é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial”

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