Atenção! Sinal vermelho. Pare!

Qual grande cidade podemos citar que não ocupe bons momentos do nosso tempo atrás de outros veículos, sentindo o cheiro forte de gás carbônico? Estava em uma dessas filas com uns 10 carros à minha frente e lá bem próximo ao semáforo uma pessoa. Pessoas também fazem parte desse cenário com muitos carros à espera do sinal verde, só que esses esperam pelo sinal vermelho. O sinal vermelho está na vida dessas pessoas o tempo todo. 
Um grupo de carros partiu e foi minha vez de aproximar. Um homem com mais ou menos 1,90m, sem camisa e muito sorridente. Fazia gestos para todos os carros como quem pede uma moeda. Chegou ao meu lado, baixei o vidro e ele parou, baixou as mãos e me disse:
 -Senhora não vou te pedir nada quero só agradecer por ter baixado o vidro, você foi a primeira pessoa que falou comigo hoje. O sinal abriu eu fui, ele ficou. Não! O sinal abriu e eu fiquei. Fiquei com aquele rapaz na minha cabeça por dias, sinceramente, me lembro dele até hoje e meus olhos se enchem de lágrimas. O sinal vermelho está com ele a todo tempo e para tentar explicar ao mundo que só precisa de ajuda arrumou o seu jeito de falar. Naquela altura precisava gesticular cada vez mais para que notassem que não faria mal. Sem camisa corria o risco de aumentar o mal estar. Seu corpo atlético poderia causar mais medo. Mas talvez fosse mais um jeito de dizer: 
– Pessoal estou sem nada. Vejam! Nada! Não tenho nada! Não sou nada! Eu nos meus humildes 1,55m reagi a sua alegria mas ainda assim, aquele espanto em seu rosto ainda está aqui. 
O moço sem camisa, gigante, em sua miséria humana foi a pessoa mais importante que cruzou meu caminho esse ano. Não  quero entrar em longas discussões sobre segurança pública para justificar o isolamento e a segregação. Não vou entrar no mérito dos infindáveis assaltos que nos ameaçam todos os dias. Vou pensar, sentir e agir sobre o assalto que cometemos diariamente quando encontramos essas pessoas bloqueando nossa “PAZSSAGEM”. O que roubamos deles? A vida, a significância, o direito de decidir o que fazer com a moeda que dei. Porque terei que ser eu a dizer para ele que o álcool lhe fará mal? Que pessoa má me torno quando decido que algo para o outro pode ser a primeira escolha para o seu próprio fim? O meu vidro fechado pode ser seu fim. Minha moeda pode ser seu caminho, mas meu bom dia pode ser um alento. Quem vive nessa vida sem alento? Quão mau posso ser quando resolvo assaltar, tirar, roubar do outro sua própria existência? Que direito tenho em dizer para ele que não é nada significante para mim? Como podemos mudar algo quando ainda insistimos em dizer alto e bom som que o mal está ali, do lado de fora do meu carro, do meu ar condicionado? Seria o caminho pensar na fala de Durkheim que diz ser a moral a ciência dos costumes? Não sei! O sinal verde permite a passagem mas talvez seja o momento de parar no sinal vermelho. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s