Amanhã! Quem sabe algo sobre o amanhã?

“A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe. Há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda. Agora está sendo neste próprio instante. Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!” Clarice Lispctor 

Ansiar o futuro é o mal de muitos, sofrer por medos com relação ao amanhã é a dor dilacerante que corta a carne profundamente, arde, queima, desespera. Amanhã! Quem sabe algo sobre o amanhã? O controle de nossas vidas insisti em se fazer presente, tola ideia. Presença de algo ilusório que sufoca, aperta o peito, enche a cabeça de pensamentos, ideias, estratégias e um sono profundo e revitalizante se torna mero desejo para que, em algum dia, eu tenha o privilégio de desfrutar. 

Como viver em uma época tão acelerada e simplesmente se permitir um tempo, uma pausa, um acalmar a mente? Os consultórios médicos enchem-se cada vez mais, prescrições de ansiolíticos tem se tornado a salvação para aqueles que beiram o colapso. Onde estamos falhando? Quando o desejo de suprir as expectativas do outro, seja seu chefe, empresa, cônjuge, se torna tema e objetivo central percebemos que a vida vivida não é a nossa. A sensação de vazio se alastra e o preenchimento tem sido de maneiras descabidas, desconectadas sem nenhuma noção exata do que esse vazio precisa. 

Muitas práticas tem sido oferecidas, algumas prometem resultados imediatos. Precisamos ser tão rápidos quando o assunto é a nossa própria companhia? Meu filho de 3 anos e 8 meses estava irritado porque não queria brincar sozinho. Eu lhe disse: Meu filho você está brincando na melhor companhia. Ele ainda mais irritado me respondeu: -Estou sozinho, quero que brinque comigo. Sentei e contei que ele não estava sem nada, ele tinha a si mesmo. Esse é um reflexo no qual estamos extremamente acostumados. Não podemos ficar sós. Estar só é sem graça, eu não tenho nada de bom para me oferecer. Essa desconexão, que pode ser alimentada desde cedo, quando os pais não permitem que seus filhos fiquem em suas próprias companhias, é um sinal de que algo não anda bem. 

Mas, como serei diferente se o mundo me exige uma produtividade acelerada? Temos que tomar sérios cuidados quando questionamos essa prática atual. Cuidar para que essa não seja a saída para minha manutenção da aceleração. O mundo não irá mudar para te proporcionar esse momento. Certo dia uma paciente chegou ao meu consultório extremamente agitada, cansada, acelarada que mal conseguia falar. Aquele momento precisava ser de desaceleração. Ao se dar conta de que não havia sentado em sua poltrona desatou a chorar. O choro aliviou, o choro acalmou, o choro desacelerou e assim demos início, com total atenção a sua própria vida. Infelizmente esse tem sido o detalhe, atender a própria vida. 


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