Meu filho cresceu: cadê o manual?

Quando um casal decide ter filhos muitas expectativas, sonhos e esperanças vêm com a notícia positiva no teste de gravidez. Durante a preparação, os meses que antecedem o nascimento exigem da relação várias mudanças e adaptações. Dependendo de como se desenrola o período gestacional o casal se aproxima ou se afasta. Enfim, planos, livros e textos educacionais começam a fazer parte da rotina dos futuros pais. Desentendimentos começam a acontecer pelo simples fato de cada um ter sido educado em linhas diferentes. No entanto, tem algo deixado de lado que acaba sendo mais determinante do que os padrões de criação individuais. Aqueles que tivemos como pais representam um modelo, e quando nos deparamos com o nosso papel entendemos que somos bastante diferentes daqueles que nos criaram. Consequentemente não conseguiremos ir adiante no modelo pré-determinado.
Nossa nova função nos deixa inseguros, com medo, apreensivos e muitas vezes com os nervos a flor da pele. O crescimento das crianças passa a nos exigir diversas e diferentes atitudes, a hierárquica, a amorosa, a compreensiva e também  nossa firmeza e coerência. Novos medos, novos desafios e tudo que tivemos como modelo pouco nos são úteis. Sabe por quê? Não somos mais aquela criança repreendida, somos adultos diante dos nossos filhos. E como ter o olhar sensível para não enquadrá-los nos livros e nos moldes do histórico familiar? Como olhar aquele pequeno ser nos olhos e dizer a ele que você entende que o tapa foi porque estava bravo? Ou quando o mesmo tapa pode ter sido uma tentativa de te controlar? Qual atitude aquela situação precisa que você tenha?
Todos já devem ter lido várias formas de educar mas cada um tem o seu modo de criar. O grande desafio, a meu ver, é cuidar primeiro de nós como pais. Como anda nossa vida? Como estamos no casamento? No trabalho? A primeira manifestação da educação de nossos filhos é a nossa forma de existir no mundo. Cuidar de si, da própria vida, é poder dar ao seu filho a sua melhor parte possível de coerência. Do que adianta um dia pesado, cansativo, ou até mesmo triste se isso não pode ser mostrado? A criança percebe. Se passamos por cima disso como se fosse algo inexistente aquele pequenino pode captar a existência de algo errado com sua mãezinha, ou seu papai e tentar de qualquer forma animá-los. Resultado? Grandes chances de te irritar. Consequência? Sua exacerbação da falta de paciência. 
“Faça o que eu falo mas não faça o que eu faço” é uma frase que, infelizmente, está mais presente na vida de muitas famílias do que podemos supor. Por isso, a qualidade na maneira como cada um dos pais vive a própria vida, como cada um cuida de sua saúde psíquica, pode ser determinante no comportamento de seus filhos. Vivemos numa época muito delicada, caracterizada pela psicóloga Marcia Neder como sendo a era da pedocracia. Ou seja, o poder nas mãos das crianças. Se não olharmos para as nossas próprias frustrações nos papéis que assumimos, dificilmente seremos capazes de frustrar nossos filhos. Assim eles se tornam reis dominando seus pais. Aquela função que começamos a exercer junto com a notícia de que “seremos pais” fica impossibilitada quando deixamos a autoridade de lado. Nossos filhos se tornam órfãos e a retribuição negativa pela ausência paterna e materna inevitavelmente virá.

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