O sentimento é seu aliado ou oponente?

“A grande infelicidade da nossa cultura é o fato de sermos estranhamente incapazes de perceber os nossos próprios sentimentos, quer dizer, sentir as coisas que nos dizem respeito. Vemos com tanta frequência pessoas passarem por cima de acontecimentos ou experiências sem perceberem o que de fato ocorreu com elas. Pois não percebem que têm uma reação de sentimento. Na maior parte das vezes sentem apenas o que chamamos de afeto, uma emoção acompanhada de sintomas fisiológicos colaterais. Quer dizer: uma atividade cardíaca aumentada, uma respiração acelerada, fenômenos motores – é isso que sentem. Mas quando se trata de uma reação de sentimento, muitas vezes nem o percebem, pois a reação de sentimento não vem acompanhada de fenômeno psicofísicos”. (C.G.JUNG, Sobre sentimentos e a sombra)
Interessante refletirmos sobre essa passagem do texto de Jung. Conseguimos de fato dar atenção ao que sentimos? É com muita frequência que diante de situações “problemas” reagimos sem nem sequer notarmos o motivo pelo qual tivemos tal atitude. Diante de uma fala torta, de um tom de voz alterado, de uma expectativa frustrada temos uma reação de contra-ataque. No entanto, nos enganamos quando dizemos que tal sentimento, seja de raiva, de indignação, foi o motivador de tal atitude. Será mesmo que estamos próximos do que sentimos?
É natural o comportamento reativo, mas não podemos dizer que ele nos traz clareza de algo em nós. A reação é em decorrência de algum sentimento afetado que não foi devidamente olhado. Quando conseguimos identificar por trás da reação o sentimento que foi machucado, podemos com mais veracidade resolver o problema em si e com o outro. 
Quantas vezes, frente a algum incômodo, você parou para prestar atenção ao seu sentimento? Quantas vezes percebeu que a atitude do outro trouxe alguma informação desconhecida sobre você? Não é pensar na frase mais corriqueira que “aquilo que está no outro está em você”, é ir além. É perceber que a ação do outro, que gerou sua reação, te trouxe um sentimento desconhecido sobre você. Nem sempre o que a pessoa te faz diz respeito ao que você é, mas pode trazer elementos do que você sente. Quando se percebe o que sente é possível notar a reação diante desse sentimento. Será então que a reação é para responder ao outro ou seria para proteger tal sentimento de vir à tona? Seria possível a indagação: o que estou sentindo? 
Em que lugar posicionamos nossos sentimentos? São nossos oponentes ou possíveis aliados na jornada da individuação? 

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