Desesperado desencontro: uma possibilidade em si.

Passamos parte de nossas vidas a espera de encontros. O encontro com o grande amor, com os amigos, com o chefe, o novo trabalho, a nova casa, a família, o filho, a escola, a viagem esperada, o retorno desejado, o vizinho, o cliente, o paciente, os funcionários, com o fim do dia e do ano, com situações boas e aquelas que queremos eliminar. Os encontros são combustíveis no processo de desenvolvimento. Com eles aprendemos algo de nós e deixamos parte naquele momento. 
Nos encontros experienciamos diversos sentimentos e sensações. Coração acelerado, medo, angústia, ansiedade, felicidade, tristeza, agonia, desespero, euforia, alegria, desamparo, decepção, surpresa, esperança, indignação. Uma infinidade de emoções se enlaçam nas relações mas, um encontro, talvez o maior deles, seja o mais impactante e difícil: o encontro com o espelho. Aquela imagem que vemos refletir diz muito de nós, mas não tudo. Conseguimos enxergar determinadas partes e temos que imaginar como somos naquilo que nossos olhos não alcançam. Podemos viver cegamente na imaginação e na maneira conveniente para manter o reflexo belo e simpático. Mas quando desejamos ir além, distinguir aqueles pontos que não são tão agradáveis, decidimos descortinar a imagem bela refletida no espelho e assim descobrir, como diz Caetano Veloso, a dor e a delicia de ser o que se é. 
Nesse momento em que optamos por deixar o espelho de lado, temos a possibilidade de assentirmos o encontro com a alma. Na análise permitimos não somente o encontro como também o desesperador desencontro. Ir se encostar no lado oposto, notar que aquilo que imaginava ser “eu” nada mais é que um singelo reflexo, uma ínfima parte de mim. Aquele reflexo pode te dizer como é a forma, mas tudo que contém dentro dessa forma vai além dos permitidos encontros da imagem com os olhos. O olhar é mais do que encontrar a imagem, é sentir a imagem de si inteiramente. 
Ir ao encontro do desencontro é notar tudo que se tornou crença e perceber que se desconhece parte fundamental de si como a possível chave para a  libertação. Libertação das verdades, das opiniões enraizadas, dos olhares presos, da ideia fixa de satisfação plena, é aceitar a dor assim como a doce felicidade. Notar que o espelho traz nada mais, nada menos que uma fixação em uma imagem idealizada de si. Quando nos olhamos no espelho fixamos em determinadas partes, aquelas que geram o sentimento intenso de adoração ou repulsa. Nos treinamos na fixação e pouco fazemos para passear com a mesma dedicação por todo nosso ser. Existe uma tendência humana em fragmentar-se e, quando nos percebemos em pequenas molduras nos consolidamos como sendo um quadro replicado. Algo do artista em si fecha-se na sua criatividade intensa para ser lembrado por uma única imagem. Talvez aquela imagem se torne grandiosa ou pode tender a ser mera cópia de outra arte, ou de qualquer outro olhar fixado. Jogar o espelho fora e tocar, cheirar, sentir o gosto do que se é. Desencontrar para assim encontrar-se. 
“Somos, nem tanto por burrice, mais por reflexo condicionado, prisioneiros do julgamento alheio. Tememos outras alternativas que não sejam as já testadas e aprovadas. Os diferentes abrem caminhos, criam opções, sobrevivem da própria independência, enquanto os outros vêm atrás concorrendo ao título de melhores ou piores em repetição” – Martha Medeiros
 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s