¨Do que vale olhar sem ver?¨

Em que preciso melhorar? Será que não enxergam o quanto aquela pessoa é cruel? Por onde devo ir? Quero fugir daqui, mas para onde vou?

Muitas vezes esses pensamentos nos assombram e algo maior vem ao nosso encontro tentar nos manter na posição do acorrentado. Se pensarmos na origem da palavra sofrer, que vem do latim “sufferre” – “sob ferros”, entendemos que esse sentimento nos coloca numa condição submissa diante do outro ou mesmo diante da vida.

Reflito constantemente sobre a posição que o ser humano tende a se colocar para fixar-se no lugar da resignação, afinal quando há uma superação a gente cresce. Mas, a alegria da superação pode ser pelo olhar de aprovação do outro. Ouvimos falas como: “Você viu o fulano sofreu tanto, agora merece ser feliz”, “Coitado, passou por tantas provações”. O quanto não esperamos esse alvará para escolhermos outro caminho? A dúvida é: queremos esse crescimento para quem? Temos em nossa cultura uma ideia equivocada de que para se ter valor tem que haver sofrimento. O nosso crescimento favorece não somente a nós, mas ao mundo. O sofrimento é apenas um degrau e não o degrau. Quando colocamos a condição humana da dor como sendo o caminho podemos viciar nele. Viciar na dor é escolher o outro como direcionador do trajeto. Compreender que a dor faz parte não significa que ela é a única forma de me permitir um caminho mais brando. Quando me alivio da culpa, do ressentimento, das mágoas, tiro de mim uma avalanche de dor assim como a imagem do desvalido.

O desafio de mudar a si mesmo vai além do olhar egocêntrico do que desejo, vai em busca daquilo que entendo por flexibilidade, maturidade e amor. É ir ao encontro não de um molde do bom cidadão e do bom cristão mas, sair do padrão para livremente sentir a si mesmo. Quando desejamos a mudança em nós algo cresce em direção a compaixão. Esse sentimento que nada mais é do que aliviar o outro de seu próprio sofrimento, nos direciona além de nós mesmos. E assim abrimos uma infinidade de possibilidades para existência do outro. Aceitar o diferente exige primeiramente aceitar-se como diferente. Ser diferente não é a busca do ser especial, mas sim o reconhecimento das igualdades. Ser compadecido do sofrimento do outro não necessariamente te coloca numa atitude genuína de proximidade e compaixão, pode te aproximar da vaidade e do desafio de manter-se na imagem benevolente. No entanto, quando me aceito na mais profunda diferença e na mais real igualdade eu acolho o outro na sua intrínseca existência. 

Muitos são os desafios, mas como diz Goethe “Do que vale olhar sem ver?”. De que me adianta um olhar para o outro se quando o vejo enxergo somente os meus desejos?  Conhecer a si mesmo vai muito além do olhar. 

“Compreendemos sempre os outros como a nós mesmos, ou como procuramos compreender-nos. O que não compreendemos em nós  próprios, também não o compreendemos nos outros”. (C.G.Jung, A natureza da psique).

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