A arte de tecer

Será possível criarmos uma imagem do tecer para iniciarmos esse texto?
Fechem os olhos e se imaginem frente a um singelo tear. Aqueles que nunca se depararam com um, têm a possibilidade de testar. Os que têm domínio sobre a arte de tecer, logo se acomodam na cadeira mais confortável e colocam as mãos a obra. Diante desse tear, você encontra uma linha, pega a ponta e coloca no topo para assim dar início a cada trançada. Você tem uma ideia do que deseja criar, escolhe as cores das linhas que iniciará o trabalho, mas sabe que ao fim pode estar bem diferente do que imaginou. As linhas podem mudar suas cores. Alguns nós precisam ser feitos para outros tons surgirem durante todo tecer, e é assim que se estabelece o trançado da vida. Bem-vindos a terapia.
O fiar é o caminho que fazemos na análise. No momento em que o encontro entre o analista e analisando acontece é como se entrássemos nessa sala do tear. Nos colocamos frente a uma situação completamente nova e desconhecida ou nos sentamos confortavelmente nesse ambiente já familiar. Seja um pouco mais lento ou não, é diante da possibilidade de tecer a sua história que se cria um ambiente propício para reflexão, para o olhar mais profundo, para a plasticidade da vida e a dureza dos olhares viciados. É nesse diálogo que se estabelece os fios que vão se enroscar, dando vida, cara, dando nós que significam e resignificam nossa jornada.

É a possibilidade de darmos asas a criação de algo maior em nós. É como se permitir o surgir de uma arte verdadeiramente sua. Muitas vezes temos que desfazer parte do que construímos para percebermos que não é o melhor caminho. Doloroso e gratificante é olhar para as escolhas e mais ainda para dentro de nós. Ilusório é aquele que acredita realmente saber quem é. Quando o recolhimento não é possível, o contato com a própria produção interna se esvai. Os que ficam tomados pela certeza da produção do outro se desconectam de si e passam a ver o tear do vizinho como sendo o seu tear. Aquele exemplo externo vira modelo e orientação, e com isso o distanciamento e o abismo se instala em si. 

Quando decidimos ir ao encontro da análise escolhemos, por algum motivo maior, entrar na sala do tear. Se vamos nos acomodar na cadeira e escolher os fios para criarmos nosso trançado ou se vamos ficar um período a observar o funcionamento da tecelagem pouco importa. O primeiro e mais valioso passo é quando percebemos que somos capazes de nos recolher e nos permitir a possível conexão. 

Para finalizar trago mais uma frase da minha amada Clarice Lispector:


 “E, por me estranhar, vi-me por um instante como sou. Gostei ou não? Simplesmente aceitei.”

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