Quando a dor é um grito da alma

“Há mais coisas numa vida humana do que permitem nossas teorias a seu respeito. Mais cedo ou mais tarde, alguma coisa parece nos chamar para um caminho específico. Essa “coisa” pode ser lembrada como um momento marcante na infância, quando uma urgência inexplicável, um fascínio, uma estranha reviravolta dos acontecimentos teve a força de uma anunciação: isso é o que eu devo fazer, isso é o que eu preciso ter. Isso é o que eu sou”. J. Hillma – “O código do ser”
Quantas pessoas buscam durante uma vida o seu próprio caminho? Quantas pessoas buscam o sinal da alma? Quantas vivem a procurar algo que não tem nome? Quando falo desse jeito parece que a minha necessidade está fora e a qualquer momento vou me deparar com ela na rua. No entanto, para encontrar o caminho é preciso voltar-se para dentro. 
Percebo com certa frequência uma sensação coletiva de “estar perdido”, sem saber qual caminho seguir. Muitas pessoas procuram a terapia justamente por terem essa sensação tão forte. Quando se permite esse recolhimento para o diálogo interno, seja através das imagens, dos sonhos, dos desejos, das conversas de corredor, das lembranças da infância, da adolescência, a alma dá um sinal. O problema é que o sinal é visto, muitas vezes, como loucura, como algo inalcançável, impossível. 
Abandonar aspectos importantes e muitas vezes solidificados é se permitir encontrar com algo tão forte e fluido, é ter que encarar, muitas vezes, um sentimento de culpa, é prender a respiração e soltar todo o peso. É tomar consciência do enquadramento social que nos impusemos. É perceber que o turbilhão foi necessário, cumpriu sua função. É um processo minucioso que precisa ser olhado e cuidado com carinho. É ter a certeza de que as dores serão compreendidas. É aprender a suportar e ir adiante. É depois de tudo isso se enxergar mais forte e flexível.  É permitir o encontro com a tranquilidade, com a harmonia daquilo que se sente, pensa e faz. Tão rico e tão terno.
Muitas vezes os dons, os talentos são reprimidos pelas circunstâncias da vida. A vida endurece e a sensação de estar no lugar errado nos força a tomar uma atitude. Assim permitimos acordar a coragem e a força existente dentro de um coração, aparentemente, fragilizado. Para encontrar a si mesmo é necessário começar a lapidação. Dar ouvidos para alma é se deparar com a possibilidade do nascimento de uma nova vida. Uma vida em si.
Enfim, após dar início com Hillman, termino o texto com Clarice Lispector:
“Em vez de dizer “o meu mundo”, digo audaciosa: o mundo depende de mim. Porque se eu não existir cessa em mim o universo” 

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