O individualismo responsável na era pós-moralista

Lendo a revista Filosofia (46) me deparei com o filósofo Gilles Lipovetsky que traz uma reflexão sobre o individualismo em uma época que ele denomina de pós-moralista. O individualismo de Lipovetsky é o individualismo responsável. 
Segue abaixo um trecho da reportagem:
“O indivíduo contemporâneo não é mais o egoísta que foi em eras passadas. A mudança está, necessariamente na constatação: “pensar só em si não é mais tido como algo imoral” (Lipovetsky, 2005), o eu conquista o direito de cidadania, no entanto, sem deixar de lado os eflúvios da bondade. De um lado, tem-se uma moral que se deseja ver incorporada à sociedade, ou, noutras palavras, a sociedade aplaude a honestidade, a polidez, o respeito etc; por outro lado, a obrigação de se abnegar ou de imolar-se, não está no cerne das preocupações. “A nova era individualista conseguiu a façanha de atrofiar nas consciências a alta consideração que desfrutava o ideal altruísta, redimiu o egocentrismo e legitimou o direito de viver só para si” ( Lipovestsky, 2005). São desacreditados o espírito de sacrifício e o ideal altruísta. No vazio deixado, a cultura pós-moralista supervaloriza os direitos subjetivos. Na concepção de Lipovetsky, a fórmula do invidividualismo consumado é manifestada na não obrigação de dedicar aos outros” 
Ainda, essa semana, lendo algumas frases de Clarice Lispector me deparei com a seguinte colocação: “De agora em diante eu gostaria de me defender assim: é porque eu quero. E que isso bastasse.”
Clarice Lispector foi uma grande mulher, que no seu profundo contato com a alma deixou um enorme tesouro para a humanidade. Por isso, trago como exemplo nesse texto.
Unindo essas duas citações acima, relaciono ao que tenho encontrado diariamente na vida e no consultório. Como a obrigação, em tempos não muito remotos, de se dedicar exclusivamente ao outro, ou ainda em sua maior parcela de tempo, era considerado bondade, amor, compaixão, altruísmo. Isso de alguma forma ainda sufoca almas que gritam por auxílio, o de olhar para si. Ouvir os sussurros subjetivos e seguir o próprio caminho ainda pode ser visto como algo individualista e egocêntrico. Me surpreendi com a colocação de Lipovetsky que traz a conotação mais positiva de um individualismo responsável e a nova noção da ética inteligente, onde a compaixão ganha um espaço genuíno e verdadeiro, sem obrigações, sem deveres. Ou seja, há um olhar mais singelo para os benefícios e não para as intenções. 
Interessante pensarmos que o contato profundo com o nosso ser nos faz mais tolerantes enquanto que, na ideia do altruísmo, distanciamos de nós e aproximamos cada vez mais de ideias construídas de que servir ao outro é servir a si. Enquanto ficamos focados somente na relação, facilmente caímos na armadilha das brigas incansáveis de verdades subjetivas. A relação me permite ser, no entanto, eu não consigo ser se não sei quem eu sou. Sendo assim, a ignorância de si faz com que se lute pelo que se acha ser, como sendo modelo do melhor a ser. 
Vejo aberta a possibilidade do caminho individual ser mais benéfico ao social, ao familiar, ao institucional quando, no ouvir a si mesmo o outro passa a fazer parte e, não mais, eu faço parte pelo que faço pelo outro. O dia a dia nos traz aprendizado, mas o contato com a nossa alma nos torna mais humanos. 

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