A transgeracionalidade e os impactos na vida conjugal

O relacionamento contemporâneo, diferentemente do amor romântico, carrega a possibilidade de auto-reflexão, diálogos sobre os sentimentos, a maneira de agir, os laços de união e com isso a constituição do indivídual e do conjugal. Nesse artigo, partindo da ideia do novo modelo relacional, tratarei sobre a interferência da transgeracionalidade, ou seja, da herança familiar na construção do casamento. 
Na constituição do indivíduo todo aprendizado consciente e inconsciente se dá primeiramente na família de origem, no entanto, a família traz consigo toda uma herança anterior que interfere direta e indiretamente na formação de cada ser.
A família contemporânea traz uma nova ideia de relacionamento, onde coloca o individual, muitas vezes, acima do conjugal o que pode se tornar um problema em algumas relações. Primeiramente é necessário explicar os impactos transgeracionais na vida do casal para posteriormente falar sobre o dilema individualidade e conjugalidade, o qual será publicado no próximo mês. 
De acordo com Féres-Carneiro, Ponciano e Magalhães em a “Família em Movimento” a elaboração da herança familiar é fundamental para a construção do presente e futuro da relação. 
Casar é trazer toda a herança familiar, é encarnar o modelo de casamento vivenciado pelos pais, tendo o peso positivo ou não. O casamento é um processo constante de negociação, já que a constituição individual se deu por todo aprendizado anterior. Há uma necessidade primeira de acordar quais os modelos herdados que serão mantidos e aqueles que serão transformados, entendendo que a modernidade exige da nova família um repensar sobre modelos e valores anteriores.
No momento em que o casal sai da cegueira da luta por um modelo repetitivo, abrem-se as portas para a construção e organização dessa nova família. Para isso, é importante compreender onde acontece a ligação genuína na relação. Situações como a espiritualidade, o social, os planos e projetos para o futuro, podem ser canais de conexão única. 
Os maiores impasses sofridos devido a herança transgeracional se referem a engessamento de modelos aprendidos, ideias como: a mulher deve ser independente, o homem é o responsável por manter a vida financeira, é importante que haja ajuda masculina na organização da casa, a mulher precisa cuidar de si e do lar, entre outras inúmeras exigências, mostra a manutenção de uma cultura social e familiar que muitas vezes impede novos acordos. A ideia constante de ajuda masculina é um dos maiores obstáculos tanto para o homem como para a mulher, já que, ainda não foi internalizada a noção de igualdade nas responsabilidades da vida a dois. 
Esses exemplos são ilustrações de uma variável enorme de possíveis situações vividas a dois, dificilmente conseguiria abordar a maioria. No entanto, dissociar o que foi aprendido para acordar a maneira de viver a dois é fundamental para prosseguir em uma união mais autêntica. Discursos maternos e paternos são, muitas vezes, determinantes na maneira de agir do indivíduo, o que não cabe em uma relação.

Como disse acima, após a ampliação do olhar sobre o aprendido e a conexão dos cônjuges é mais fácil a ligação e a aceitação do que deverá ser transformado e aquilo que se manterá como herança das famílias de origem. Cada casal, cada história individual e a construção do novo é além de importante, um combustível renovador e de união para o casamento. Essa re-significação da transgeracionalidade além da autonomia conjugal traz a segurança de estar no caminho certo, o caminho de responsabilidade dos dois e não a permanência de modelos individuais que precisam estar em constante luta para mostrar a sua veracidade.  

Enfim, poder escolher quais aspectos herdados serão mantidos e quais serão abandonados é o início da construção de um casamento. Para finalizar, de acordo com as autoras acima:
“A tarefa do sujeito assim como da família e do casal é construir, organizar e transformar suas heranças”.

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