Somos íntimos?

Intimidade é um assunto que parece, num primeiro momento, algo tranquilo de se definir. Muitas pessoas diriam que ser íntimo é poder chegar em casa e saber o que aconteceu no dia do parceiro, é poder entrar em seu mundo tendo livre acesso, é saber ouvir e saber falar, no entanto, a proximidade muita vezes vira coerção e com isso consequências inevitáveis aparecem sem pedir licença. 
A base de um bom relacionamento, seja ele qual for, é saber que somos diferentes uns dos outros e que isso não nos torna melhor ou pior, mas sim, diversos. Dentro de uma relação é comum que um tenha uma forma de se comunicar diferente do outro o que pode, ou não, gerar ruídos na convivência. Diante disso como funcionará a intimidade do casal? Ela realmente existe ou está na base da intimidação e coerção?
Exigir do outro de forma sutil e delicada que lhe conte tudo, comparar a forma de agir com a do parceiro faz com que as diferenças tornem-se obstáculos intransponíveis. As diferenças podem ser assimiladas na relação de forma que o valor do outro se sobressaia e para isso é preciso mudar o jeito de olhar para si e para a pessoa amada. 
A intimidade é muitas vezes confundida, e o que se vê é a necessidade de controlar a vida do parceiro. 
– “Você tem que me ouvir.”
– “Não vai dizer que me ama?”
– “Eu te conto tudo.”
São possíveis evidências de coerção, invasão e necessidade de reciprocidade onde a proximidade deveria ser natural na relação de um casal. 
A terapeuta de casal Esther Perel retrata muito bem essa intimidade disfarçada em controle:
“Quando o impulso de compartilhar vira obrigatório, quando os limites pessoais já não são mais respeitados, quando só se conhece o espaço compartilhado com o companheiro, e o espaço privado é negado, a fusão substitui a intimidade e a posse coopta o amor. É o beijo da morte para o sexo. Destituída de enigma, a intimidade torna-se cruel quando exclui qualquer possibilidade de descoberta. Onde nada resta a esconder, nada resta a procurar”.
A imposição mostra que o terceiro lugar, o casamento, não existe nessa união. Eu sou assim, você é de outra forma, e em cada momento um cede é o maior equívoco de que a relação está em bom funcionamento.
A necessidade de se ter o controle da vida do outro tendo como base a falsa ideia de interesse e intimidade, mata a possibilidade de existência do individual e assim consequentemente é o meu olhar sobre o meu parceiro que faz dele aquilo que eu vejo e exijo que ele seja. Como haverá amor, desejo em algo que se tem pleno domínio? Não há desejo e intimidade quando se mata a possibilidade do outro existir como um ser em constante mudança. 
Enfim, ter a certeza do outro é ter em mãos o atestado de óbito da relação.

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