O leito de Procusto e a mutilação da alma

“Quem não vive o próprio animal trata os outros humanos como animais” – C.G. Jung.
A todo momento somos influenciados em nossa maneira de sentir, pensar e estar no mundo. Somos moldados desde pequenos por ideias de nossos pais, depois pela influência de nossos professores e assim pela sociedade em que vivemos. Logicamente estamos em um mundo onde as regras são necessárias e fundamentais para o funcionamento do sistema, no entanto, que regras nos mutilam a alma?
Ser o que o outro espera de nós é muitas vezes autoagressão, principalmente quando não conseguimos mais nos encontrar no meio de tantos “deveria”. Vejo com frequência crianças, adolescentes, adultos que dizem estar entediados. O que significa tédio? Pensar sobre o tédio me fez entrar em contato com uma realidade vivida por pessoas distantes do que são e muito próximas do que esperam que sejam. Estar entediado é estar sem estímulo, é não conseguir vislumbrar nada atraente, ou seja, é não encontrar o prazer em nenhuma atividade. Muitas vezes é vista como perda de tempo, até mesmo pelo fato de não se permitirem o ócio, ou então, pela cegueira da alma. 
Na mitologia grega o mito do leito de Procusto é vivenciado por muitas pessoas na atualidade e tal mito reflete, a meu ver, o tédio, a falta de autenticidade e a ausência de contato com o seu lado inato. O mito conta que os homens em viagem de Mégara a Atenas eram obrigados e deitarem no leito de Procusto. Era esperado que o homem tivesse o tamanho exato do leito, caso contrário sofreria a interferência, sendo esta, a amputação ou o esticamento de suas pernas. Passar pelo leito de Procusto era se enquadrar no esperado. O que é esperado está fora e com isso muitos valores internos são desprezados para que encaixem nos valores em destaque em determinada época social. 
Luiz Felipe Pondé usa um termo que acho interessante colocar aqui: a promiscuidade antropológica. Por esse termo o filósofo diz sobre  o excesso de cultura, de pessoas, ideias, informações, tribos, grupos, sociedades, que podem gerar ódio em outras tantas pessoas por simplesmente representar o desconhecido que gera medo. Mas que desconhecido é esse que amedronta? Não seria o nosso lado sombrio? 
Os nossos monstros que encontram-se incosncientes e projetados no mundo, em pessoas, ideias, organizações, instituições, grupos, modo de vida, etc. são, a meu ver, reflexo do enquadramento social. O distanciar do si-mesmo gera uma aproximação cega de modelos de vida incoerentes, incompatíveis e que geram desarmonia com o nosso traço mais verdadeiro. 
Como pais temos que nos atentar para  não contribuirmos com a mutilação dos nossos filhos pelos ideiais vendidos pela sociedade, por exemplo: um filho homem ligado em música, que canta e dança pode ser autorizado em seu dom ou então aconselhado a ter tal comportamento apenas em seu quarto já que meninos preferem jogar futebol. Em casos extremos são proibidos. Cuidados como esse que parecem carinhosos aos olhos de pais protetores que não querem que seus filhos sofram, monstram a ele que aquilo que é importante para sua alma, deve ser escondido. Se precisa ser escondido é porque vai contra ideias e valores sociais, ou então, contra valores dos próprios pais que projetam na sociedade o pai castrador. 
Mas, como não deitarmos no leito de Procusto? Conseguir identificar a origem de nossas angústias, tédio, medo, insegurança permite que encontremos aspectos que, ao julgamento do outro, não eram importantes para nós em detrimento de algo de muito valor. Perceber o nosso limite e olhar para dentro da nossa sacola, vasculhar e encontrar escondido o valor mais precioso que nos foi e que permitimos ser retirado de nós é um caminho para o encontro da alma. No entanto, os talentos, traços inatos que foram desencorajados estão próximos a nós e, muitas vezes agindo de maneira primitiva como uma tentativa de nos chamar atenção. Recuperá-los é fonte de energia para caminharmos rumo a totalidade. 

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