Separar para casar

Há algum tempo falo sobre casamento e família. Percebo que tal assunto não se esgota. Um questionamento me passou: será mesmo necessário separar para casar? Quando falo em separação me refiro à necessidade de diferenciação das famílias de origem para permitir a construção da família atual. Separar-se dos pais é uma missão difícil porém necessária.
Há uma impossibilidade do casamento acontecer quando os cônjuges ficam aprisionados à ideias, valores, comportamentos e nem questionam se agem por convicção ou simplesmente de forma mecânica. Quando percebemos que um dos parceiros ou ambos defendem cegamente atitudes que não são tão consistentes, nota-se uma repetição inconsciente de padrões familiares, o que mantém a indiferenciação.
No entanto, quando percebemos a união do casal, fica evidente a cumplicidade atuando na vida pelo casamento, o que possibilita a construção de novos valores e ideais. Isso não significa que a herança familiar não os acompanhe, muito pelo contrário, a herança se mantém e seguirá por outras gerações. A diferença é que há uma consciência e uma visão ampla que permite refletir e escolher. A possibilidade de escolha é reflexo da diferenciação.
Um casal diferenciado se integra na união e na família de origem sem que esta vire uma ameaça para a relação. A cumplicidade maior está na díade marido e mulher e não mais minha família x sua família.
Mas, o que é necessário fazer para que ocorra a diferenciação? Um dos pontos que devem ser trabalhados na relação é o diálogo, sem disputa, sem donos da verdade. Diálogo franco e respeitador. Quando um casal consegue conversar abre a porta para as demais mudanças. Cria-se através da conversa uma aliança que ultrapassa as palavras, ela se instala no olhar, no gesto, na respiração mais profunda. Com a comunicação acertada, os acordos passam a ter espaço para existir. Os limites ficam claros entre a nossa família, os meus e os teus pais. A família central passa a ser a de sua escolha, os pais ocupam um lugar novo e essencial de apoio e sabedoria. Tal limite pode parecer duro e cruel, no entanto, é um limite saudável, necessário e encantador pois traz a todos a  beleza de criarmos novas formas de ser e agir no mundo. Os nossos pais passam a ser, referência de homem, mulher e casal e ocupam um novo lugar social e familiar de sogros e avós.
A beleza da diferenciação e da mudança permite à todos uma nova vida com respeito, limite e principalmente referência.

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