Casamento, Intimidade e Sexualidade

Tenho visto com certa frequência muitos casais reclamarem de sua vida sexual no casamento. O que antes era queixa dos homens, hoje tem ficado mais evidente a ausência deles na cama e a presença de mulheres insatisfeitas. Casais cansados, sem disposição e com outras prioridades, permitiram que o mistério da sedução perdessem o seu lugar. Que intimidade conquistada foi essa que trouxe ao casal desânimo sexual? 

Escuto de muitos casais questões como: “Isso é normal não é? Depois de algum tempo junto o sexo tende a ficar monótono e escasso”; “Eu sei que o sexo muda, mas, porque ele não consegue mais me olhar com desejo?” Esse tipo de insatisfação sempre aconteceu? Pensar sobre a sexualidade e buscar uma melhora tem ficado cada vez mais frequente. Não é mais uma insatisfação só do homem, as mulheres tem reclamado cada vez mais da ausência de seus maridos. No entanto, muitas delas voltam toda a culpa para si e reflexões sobre não ser mais atraente, estar acima do peso, flácida, ficam cada vez mais constantes. O problema é que novamente a mulher passa a ser responsável pelo prazer do homem, nesse caso a falta de estímulo é culpa exclusivamente dela. Peso desnecessário e cada vez mais frequente. 

O relacionamento há muito tempo tem lutado para conseguir seu espaço íntimo, com a intimidade que traz cumplicidade, apoio, diálogo. No entanto, juntamente com a amizade e proximidade os casais se afastaram na cama. A sexualidade está cada vez mais escassa, o leito que no início do casamento era o lugar mais frequentado hoje está populoso, com filhos, preocupações, trabalho, estresse e incansáveis diálogos sobre o relacionamento. 

Ao meu ver, o que pode minar o desejo é a ilusória ideia de garantia, não há relacionamento que se garanta simplesmente pelo fato de, eu acho que o outro merece ser feliz e a felicidade dele sou eu. A intimidade traz a ideia de pertencimento, não existe perigo de se perder, o outro é meu, o que mostra o caráter possessivo da relação. Essa intimidade mata o desejo pois não há perigo da perda, no entanto, quando o perigo se torna iminente o desejo volta à tona. A partir do momento em que a ideia de pertencimento desocupa o lugar, o relacionamento adquire uma nova cara, a intimidade passa a ter outro significado, sou íntima, ele me conhece, mas, não conhece tudo. Eu posso manter o meu espaço e esse espaço é suficiente para fazer com que o outro me queira por perto. A ilusão de conhecer o outro plenamente afasta a necessidade de exploração e impossibilita a mudança. Tal impossibilidade gera angústia e pensamentos como: “Se eu mudar posso perder o meu companheiro (a), eu posso não ser aceito (a)”. Esse aprisionamento acontece justamente porque criou-se a necessidade de um relacionamento estático, aí, fica a questão: como uma relação estática pode gerar uma sexualidade atraente?

Anteriormente o homem se via como o único receptor do prazer e a mulher tinha que cumprir com o seu papel de esposa. Hoje, o homem se percebe como agente do prazer, o que me faz pensar que a partir dessa mudança pode ter ocorrido uma autocobrança onde ele precisa mostrar para si e para o outro o seu desempenho.

Penso que, não podemos mais olhar como sendo uma questão do homem ou da mulher, mas sim do casal. Ninguém tem que se sacrificar pelo outro mas sim pela relação. A relação exige, o casamento e o amor precisam acontecer para que a união se mantenha em pilares fortes e saudáveis. 

Termino o texto com uma belíssima frase de Joseph Campbell:  “O amor em si é dor, você poderia dizer, a dor de estar verdadeiramente vivo”.

Esse texto é uma pequena parte do artigo apresentado no XX Congresso Internacional da Associação Junguiana do Brasil que aconteceu em junho de 2012. “Amor sem sexo é amizade? Aumento da intimidade com a perda da sexualidade é um destino do casamento?”

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